A possível prorrogação dos benefícios tarifários para a importação de carros elétricos e híbridos, defendida por montadoras chinesas no Brasil, colocou a indústria automotiva nacional em rota de colisão com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) afirma que uma mudança no cronograma de recomposição das alíquotas de importação pode comprometer os R$ 140 bilhões em investimentos anunciados pelo setor em 2023.
O cronograma em vigor estabelece a retomada do Imposto de Importação de 35% para veículos eletrificados em julho de 2026, encerrando um período de transição iniciado em 2023. A indústria, porém, teme que o governo volte a adiar a recomposição tarifária por pressão de montadoras chinesas para estender os benefícios de importação.
“O rompimento da pactuação do cronograma das alíquotas constrange o setor e põe em risco o investimento anunciado em 2023”, declarou o presidente da entidade, Igor Calvet.
O tema deverá ser analisado pelo Gecex-Camex (Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior) na 5ª feira (25.jun), quando o colegiado decidirá se mantém ou altera as regras atuais
Um tom acima
A declaração marca uma elevação do tom da indústria com o governo. O setor vinha tratando o tema de forma reservada, mas decidiu divulgar uma carta aberta em que pede a manutenção integral do cronograma de recomposição das tarifas de importação para veículos eletrificados. Leia a íntegra (PDF – 150 kB)
A Anfavea também defende o fim das cotas de importação com alíquota zero, encerradas em janeiro de 2026, e cobra que qualquer eventual mudança seja precedida de diálogo com as montadoras instaladas no país.
Eis as principais demandas:
- manutenção do cronograma de recomposição das tarifas de importação e sem adiamentos;
- não renovação das cotas de importação com alíquota zero (encerradas em janeiro de 2026);
- diálogo com a indústria antes de qualquer mudança.
“O setor sempre manteve canal aberto com o governo. Esperamos ser chamados para discutir um tema de impacto tão profundo para a indústria brasileira”, afirmou Calvet.
Segundo o executivo, a preocupação vai além da medida em si e atinge a previsibilidade regulatória do país.
“A indústria é avessa à insegurança. O rompimento da pactuação do cronograma das alíquotas constrange o setor e põe em risco o portfólio de investimentos anunciado em 2023. Na fase final do cronograma, esse rompimento coloca em xeque o quanto o governo vai cumprir o restante”, disse.
Calvet se refere aos R$ 140 bilhões em investimentos anunciados pelas montadoras instaladas no Brasil desde 2023, em resposta ao avanço da eletrificação do setor. Segundo ele, o montante poderá ser revisto caso as empresas concluam que o país adotará de forma permanente um modelo baseado na importação de veículos sem tarifas ou na montagem local de carros trazidos em kits do exterior.
Nesse modelo, conhecido pelas siglas CKD e SKD, os veículos são importados desmontados, total ou parcialmente, para serem montados no Brasil, exigindo um nível menor de nacionalização da produção e de desenvolvimento da cadeia de fornecedores.
Pressão no ar
A discussão ocorre em um momento de pressão de fabricantes chinesas, especialmente as que ampliaram sua presença no mercado brasileiro nos últimos anos, por uma extensão das cotas de importação sem cobrança de imposto.
O posicionamento da Anfavea ganhou apoio de sindicatos historicamente alinhados a Lula. A CUT (Central Única dos Trabalhadores) e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, considerado o berço político do petista, também defendem a manutenção do cronograma atual.
Toda a teia do setor automotivo representa cerca de 25% do PIB industrial brasileiro e avalia que uma eventual revisão das regras de importação sinalizaria uma quebra de compromisso do governo com as empresas que anunciaram novos aportes no país nos últimos anos.