Um novo perfil profissional, denominado HIC (High-Impact Individual Contributor, ou colaborador individual de alto impacto), tem gerado debate nas redes sociais. A proposta é que esse profissional, dominando ferramentas de inteligência artificial (IA), consiga realizar sozinho o trabalho que antes demandava uma equipe inteira, abrindo mão de funções gerenciais.
Na prática, as tarefas operacionais são executadas por ferramentas de IA, como compiladores de código com assistência da IA e geradores de conteúdo. O especialista sênior opera a cadeia de agentes, dando comandos e supervisionando as etapas de execução.
Para Robson Gonçalves, economista e professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), essa relação de trabalho, já presente no mercado corporativo americano, deve demorar a chegar com força ao Brasil. "Lá no Vale do Silício, as empresas já buscam especificamente esses profissionais; aqui no Brasil, embora alguns já atuem substituindo equipes inteiras, ainda não existe um descritivo dessa função", afirmou.
Elena Verna, executiva que cunhou o termo HIC, relatou em artigo que recuou na carreira como diretora da empresa Lovable para voltar a ser especialista, agora sozinha e com o mesmo salário de diretora.
No Brasil, a discussão ganhou destaque após um vídeo de Vicente Conde, executivo formado em Harvard e economista pela Universidade de Granada (Espanha). Nele, Conde menciona um candidato a vice-presidente de produto de uma empresa americana que teria apresentado contraproposta com salário três vezes maior que o previsto, justificando: "Não preciso de time". Segundo o vídeo, o funcionário documentou por 12 meses tudo o que entregou sozinho, apenas com apoio da IA, provando que produzia o equivalente a oito pessoas.
Conde explicou à Folha que a lógica do mercado especializado está se invertendo: o foco agora é a entrega por unidade de custo. "Quem consegue demonstrar isso com números concretos está tendo um poder de negociação que até então não existia", disse. "O que mais me chamou a atenção na conversa não foi o salário, mas sim a inversão que está acontecendo. Por décadas, crescer na cadeira significava acumular efetivo. Os HICs estão propondo o oposto: crescer para eles é se tornar tão capaz que dispensa qualquer tipo de estrutura".
Conde define o HIC como alguém que entende como a tecnologia cobre lacunas técnicas que antes exigiam a contratação de especialistas em design, engenharia ou marketing, permitindo entregar projetos complexos de forma autônoma.
Pesquisa Global Total Rewards Pulse, da Korn Ferry, de março de 2026, aponta que 76% das organizações acreditam que o impacto da IA nos cargos está aumentando. Quanto à remuneração, o relatório indica que profissionais especializados com IA recebem prêmios entre 10% e 15% acima de seus pares. "As empresas estão usando incentivos de assinatura e bônus de retenção para competir por talentos altamente especializados em IA", diz o estudo.
Robson Gonçalves alerta para uma assimetria de informação: muitas vezes as empresas sabem quanto o cliente final paga e retêm a margem, enquanto o profissional, focado na entrega técnica, continua aprendendo a precificar sua nova capacidade.
Gabriela Nunes, professora de gestão de carreiras da FGV, adverte que, para quem não se qualificar e incorporar a IA no trabalho, será cada vez mais difícil conquistar boas posições, gerando o que chama de "desemprego silencioso". "A alta do desemprego não virá por demissões em massa, mas sim como uma vaga que não foi aberta, ou um trainee que não foi contratado porque suas tarefas foram absorvidas por um profissional sênior que rende três vezes mais com IA". Para ela, o risco é o excedente de profissionais que pode ficar em um limbo educacional, sem desenvolvimento ou progresso na carreira.
Com informações de Folha — Tec.