Profissionais de saúde no leste da República Democrática do Congo (RDC) trabalham intensamente para conter o surto de ebola, que já registrou mais de 282 casos confirmados e 42 mortes, além de mais de 1.000 casos suspeitos, com mais de 220 óbitos. As equipes enfrentam desafios como escassez de equipamentos de proteção, demora na confirmação de casos e conflitos armados na região.

Isolamento e uso de equipamentos de proteção

Todos os pacientes suspeitos ou confirmados são isolados, e qualquer pessoa que entre em contato com eles deve usar equipamentos de proteção individual (EPIs). Uma das inovações utilizadas é a "Cube", unidade de tratamento autônoma e transparente desenvolvida pela ONG Alima (Alliance for International Medical Action) após o surto de 2014-2016 na África Ocidental. A estrutura permite que médicos tratem pacientes externamente, usando luvas acopladas em formato de túnel, reduzindo a necessidade de EPIs completos.

O médico Papys Lame, coordenador da resposta ao ebola da Alima, afirmou à BBC que a Cube garante "o padrão de atendimento necessário, uma experiência positiva para o paciente e a proteção dos profissionais de saúde". No entanto, não há unidades suficientes na RDC. Duas Cubes chegaram a Bunia, capital de Ituri, e outras duas estão a caminho.

Escassez de EPIs e riscos para profissionais

Os estoques de EPIs são limitados. Em 29 de maio, o Conselho Internacional de Enfermeiros alertou para a escassez e afirmou que enfermeiros na RDC "temem por sua segurança porque não têm equipamentos necessários para se proteger". Dezesseis profissionais de saúde tiveram diagnóstico confirmado de ebola durante este surto. Na semana passada, cinco pessoas receberam alta após se recuperarem, incluindo quatro enfermeiros e um trabalhador de laboratório.

Sintomas e diagnóstico

O ebola se espalha por contato com fluidos corporais infectados. Os sintomas iniciais são inespecíficos: dor de cabeça, febre, fraqueza, dores musculares, vômito e diarreia. O médico Armand Sprecher, epidemiologista da Médicos Sem Fronteiras, explicou à BBC que esses sintomas são comuns em doenças como malária e febre tifoide. Um sintoma tardio é o sangramento. Pacientes suspeitos passam por coleta de amostras; se o primeiro teste der negativo, outro é feito 48 horas depois. Caso ambos sejam negativos, o paciente é liberado ou encaminhado para outros cuidados. Para os positivos, os sintomas são tratados até que dois testes laboratoriais deem negativo.

Desafios no rastreamento e tratamento

A demora na confirmação dos casos nos primeiros dias permitiu que o vírus se espalhasse de Ituri para Kivu do Norte, Kivu do Sul e Uganda. Sprecher afirmou que os profissionais não têm o "mapeamento habitual da transmissão" observado em surtos anteriores, dificultando a identificação de cadeias de contágio. Não há medicamentos aprovados contra a espécie Bundibugyo, responsável pelo surto, nem vacina aprovada, embora vacinas experimentais estejam em desenvolvimento. O tratamento inclui cuidados de suporte, como oxigênio, ventilação e fluidos intravenosos.

Condições de trabalho e segurança

O trabalho é fisicamente exaustivo, especialmente devido ao clima equatorial. Sprecher destacou que o uso de EPIs limita a jornada a cerca de uma hora, pois o superaquecimento e o suor acumulado causam tontura e perda de clareza mental. Existe um sistema de parceiros, no qual um observador externo monitora e alerta sobre riscos, como tocar o rosto.

Conflito armado e resistência comunitária

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, pediu colaboração das comunidades após ataques a centros médicos em protesto contra regras rígidas de sepultamento — corpos suspeitos de ebola não podem ser manipulados por familiares. Ghebreyesus descreveu Ituri como o centro de uma "colisão catastrófica entre doença e conflito". A província está sob regime militar desde 2021, e grandes áreas de Kivu do Norte e Kivu do Sul estão sob controle do grupo rebelde M23. Apesar disso, organizações como Alima e Médicos Sem Fronteiras mantêm profissionais em áreas controladas por rebeldes, incluindo Goma.

Com informações de Folha — Equilíbrio e Saúde.