O professor de Relações Internacionais da PUC-SP Tomaz Paoliello afirmou que as tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros são medidas oportunistas, que visam retomar a América Latina como zona de influência direta e também influenciar as eleições legislativas nos EUA neste ano. Segundo ele, as ações também refletem a pressão de grandes empresas de tecnologia (Big Techs) para operar sem regulamentação no Brasil.
“Qualquer uma dessas coisas, seja o PIX ou o mercado de etanol, são oportunistas. Quer dizer, elas podem ser usadas ou não – nada disso é novo”, afirmou Paoliello. Ele indicou que a melhor estratégia diplomática é a negociação e a atuação dos empresários diretamente envolvidos, como ocorreu em 2025, quando o governo de Donald Trump impôs uma tarifa de 50% a diversos produtos brasileiros.

Diferentemente das tarifas do ano passado, que foram derrubadas pela Suprema Corte Americana, as atuais estão embasadas na Lei de Comércio de 1974 dos EUA, especificamente na Seção 301, que permite retaliação a países considerados “desleais”. Isso lhes confere respaldo jurídico e as torna mais difíceis de serem anuladas.
Paoliello analisou que o cenário político criado por Trump é característico de sua estratégia de negociação: criar um contexto que lhe forneça ampla vantagem de barganha. “Eles têm, até que as tarifas entrem em vigor (em 15 de julho), uma expectativa de que o Brasil faça acenos, que o governo brasileiro ofereça determinadas medidas que seriam favoráveis aos Estados Unidos para que o Trump venda essa imagem de bom negociador”, disse.

O pesquisador alertou sobre o poder político e econômico dos EUA, mesmo diante da ascensão da China. “No equilíbrio de forças a nível global, a ascensão da China coloca essa imagem da decadência relativa dos Estados Unidos no jogo de potências. Em termos dos meios de poder que os Estados Unidos têm, [entretanto, eles] são muito poderosos. Ainda é incomparável”, avaliou.
Para Paoliello, as “tragédias humanitárias” em curso e as guerras por disputa de zonas de influência devem continuar. “A gente precisa ficar de olho no que os Estados Unidos estão pretendendo fazer em Cuba e o que estão pretendendo fazer em termos de eleições na América do Sul. Os Estados Unidos ‘colocaram as asas de fora’ no governo Trump – e a gente vê o alcance que têm de poder”.

Contexto das medidas
Em poucos dias, os EUA classificaram facções criminosas brasileiras como terroristas, impuseram tarifa de 25% sobre o Brasil alegando práticas comerciais desleais (especialmente em relação ao Pix), afirmaram que o Brasil não é um país aliado e propuseram tarifa extra de 12,5% devido a suposto trabalho forçado. Paoliello acredita que o principal objetivo é retomar a América Latina como esfera de influência dos EUA, com maior ascendência política, forçando o Brasil a tomar decisões favoráveis aos interesses americanos.
Interferência eleitoral
O professor vê uma tentativa de interferência não apenas nas eleições brasileiras, mas em um movimento mais amplo. Ele destacou que as eleições legislativas nos EUA neste ano são ainda mais importantes para o governo Trump, que busca aprovar medidas enquanto ainda tem maioria no Congresso. “É um governo aproveitando enquanto eles ainda têm maioria congressual para ‘passar a boiada’ deles”, afirmou.
Estratégias diplomáticas
Paoliello defende a negociação como principal estratégia. Ele observou que Trump costuma criar um grande incômodo nas relações bilaterais para depois vender uma solução. “Eles têm, até que as tarifas entrem em vigor, uma expectativa de que o Brasil faça acenos”, disse. Entre os possíveis itens de barganha estão a cooperação no combate ao crime organizado e o acesso à exploração de terras raras no Brasil.
Legitimidade das acusações
O pesquisador considera que as alegações dos EUA, como as relacionadas ao Pix e ao trabalho forçado, são oportunistas e baseadas em informações incorretas. “A questão do etanol, por exemplo, é super antiga, não é deste governo. Agora foi reempacotada dentro dessa nova medida”, explicou. Ele também apontou que as Big Techs pressionam o governo americano para atuar contra regulações no Brasil, como as decisões do STF.
Chance real de implementação
Paoliello acredita que há uma chance real de as tarifas entrarem em vigor em 15 de julho, pois agora têm respaldo jurídico. No entanto, a intermediação de empresários brasileiros e americanos pode ajudar a desmontá-las depois. O Brasil, por sua vez, pode buscar novos mercados, como a União Europeia e a China, para reduzir a dependência dos EUA.
Poder dos EUA e riscos de intervenção
O professor rejeitou a ideia de que os EUA sejam um império em decadência, citando a capacidade de moldar regiões, como no Oriente Médio. Sobre uma possível intervenção direta no Brasil, ele considerou improvável, pois os EUA não têm tradição de intervenções na América do Sul, exceto em casos como Venezuela e Colômbia. Ele alertou, porém, para a necessidade de monitorar as ações americanas em Cuba e nas eleições sul-americanas.
Com informações de Agência Pública.