A consulta pública que debateria a criação do Refúgio de Vida Silvestre Delta do Salobra, em Mato Grosso do Sul, foi obstruída na quarta-feira (17) por proprietários rurais contrários à proposta. O grupo ocupou o palco do Auditório da Prefeitura Municipal de Bodoquena, gritando palavras de ordem contra agentes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), impedindo o início da sessão e qualquer diálogo. Durante as manifestações, foram repetidas informações equivocadas sobre os supostos impactos da unidade de conservação (UC) no território e seus moradores.

Obstrução e reação do ICMBio

Liderada pelo Sindicato Rural de Miranda e Bodoquena, a obstrução contou com o apoio da prefeita de Bodoquena, Girleide Rovari (MDB), que se manifestou contrariamente ao Refúgio de Vida Silvestre (REVIS) em suas redes sociais. Segundo a prefeita, a ação visava “defender o diálogo, a segurança jurídica e o respeito àqueles que há gerações contribuem para o desenvolvimento da nossa região”.

O ICMBio informou, em nota, que lamenta o adiamento da consulta pública e repudia atos que inibem o debate público, ordeiro e pacífico. O órgão destacou que a decisão de adiar foi motivada pela ausência de garantias mínimas de segurança, conforme atestado pela Prefeitura de Bodoquena e pela Polícia Militar. “Entre os participantes havia homens, mulheres, crianças e idosos interessados em conhecer a proposta. Essas pessoas tiveram seu direito à participação comprometido ao se sentirem intimidadas pelos gritos, ofensas e manifestações agressivas”, afirmou o comunicado.

Esclarecimentos sobre o REVIS Delta do Salobra

O Refúgio de Vida Silvestre (REVIS) é uma categoria de UC de proteção integral, mas permite a compatibilização com propriedades particulares, desde que as atividades sejam de baixo impacto, como agricultura familiar e pecuária sem conversão de pastagem ou sobrepastoreio. A proposta, de 60.791 hectares, privilegia áreas com baixa aptidão para agropecuária, sendo que cerca de metade já corresponde a Reserva Legal ou possui restrições ambientais por legislação estadual ou características naturais.

Diferentemente do que foi alegado pelos opositores, o REVIS não altera o contexto da pesca na região. A pesca no rio Miranda poderá continuar normalmente, enquanto no rio Salobra a atividade já é proibida desde 2018 por lei estadual. O turismo também não será impedido; pelo contrário, a UC visa fomentar o turismo sustentável.

Contradições e reações locais

Apesar de defenderem o diálogo, a prefeita e o sindicato rural impediram a realização da consulta pública, que é justamente o espaço para ouvir a população. O sindicato, presidido por Adauto Rodrigues de Oliveira — multado em 2023 por desmatamento ilegal no Pantanal —, publicou nota de agradecimento aos manifestantes, destacando supostos impactos para quem depende da pesca e do turismo.

Emocionada, a professora e pantaneira Taynara Moraes desabafou: “Nós estamos na comunidade o tempo todo tentando reverter essa desinformação, mas os caras têm dinheiro, né? Lá em cima a galera tem que olhar aqui pra gente, olhar para o Pantanal, para as comunidades”.

Processo de criação e importância ecológica

O presidente do Instituto Delta do Salobra (IDS), Maurício Copetti, lembrou que a criação do REVIS vem sendo discutida há anos com diversas instituições e atores locais, tendo passado por ajustes para conciliar conservação e atividades econômicas. “Acreditamos que informações corretas, transparência e participação são os melhores caminhos para que a população conheça a proposta em profundidade”, declarou.

O Delta do rio Salobra está localizado entre a Serra da Bodoquena e a planície pantaneira, na transição entre os biomas Pantanal e Cerrado, com remanescentes de Mata Atlântica. A área abriga rios, lagoas, campos alagados, cavernas, grutas e nascentes estratégicas para a segurança hídrica regional, além de espécies ameaçadas da fauna e flora brasileiras.