Produtores rurais e moradores da região da Terra do Meio, unidade de conservação no sul de Altamira (PA), interceptaram caminhões utilizados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para transportar gado apreendido e libertaram os animais. O episódio ocorreu na última terça-feira (9), durante a Operação Pasto Nullus, deflagrada pelo instituto no dia 3 de julho.

Na ocasião, fiscais haviam apreendido aproximadamente 90 cabeças de gado. Imagens que circulam em redes sociais mostram pessoas cercando os veículos, abrindo as carrocerias e soltando os animais. O ICMBio confirmou a ocorrência e informou que houve ataques aos caminhões usados na ação.

Contexto da unidade de conservação

A Estação Ecológica da Terra do Meio é uma unidade de conservação de proteção integral criada em 2005. Nessa categoria, não é permitida exploração econômica dos recursos naturais, como criação de gado ou ocupação privada. O objetivo principal é a preservação da natureza e a realização de pesquisas científicas. No entanto, produtores locais afirmam que estão na região há muito tempo e que o governo não apresenta solução fundiária.

Operação Pasto Nullus

A operação foi lançada pelo ICMBio com apoio de órgãos federais e estaduais. Segundo o órgão, os animais ocupam áreas embargadas por desmatamento. A ação concentra-se principalmente na região conhecida como Transiriri, uma das mais ocupadas da estação ecológica.

A Operação Pasto Nullus é desdobramento de medidas adotadas pelo ICMBio desde o ano passado. Em maio de 2025, o instituto aprovou um plano emergencial para permitir a retirada voluntária dos rebanhos existentes dentro da Terra do Meio. A proposta previa que os ocupantes retirassem os animais de forma organizada, com acompanhamento da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará) e emissão de Guia de Trânsito Animal (GTA). O plano foi apresentado como tentativa de reduzir conflitos e permitir a desocupação gradual.

Após o plano, o ICMBio afirmou ter iniciado a notificação de 43 ocupações irregulares dentro da unidade, com prazo para retirada voluntária do gado e desocupação das áreas. Segundo o instituto, uma parte dos ocupantes aderiu, mas outras áreas permaneceram com atividade pecuária.

Características da Terra do Meio

A Terra do Meio é uma das regiões mais sensíveis da Amazônia. A estação ecológica integra um mosaico de áreas protegidas entre os rios Xingu e Iriri, no sudoeste do Pará. A unidade ocupa mais de 3,3 milhões de hectares e abrange áreas dos municípios de Altamira e São Félix do Xingu. Sua criação ocorreu justamente devido à forte pressão de grilagem, abertura de pastagens e desmatamento.

Reações e investigações

Entre os produtores rurais, a principal crítica é que o governo estaria tratando ocupantes antigos da mesma forma que invasores recentes. Lideranças locais argumentam que muitas famílias vivem na área há anos e dependem da pecuária para subsistência, e que a regularização fundiária não avançou na mesma velocidade das ações de fiscalização. O ICMBio sustenta que os ocupantes foram informados previamente sobre as restrições legais e que a permanência do gado é incompatível com a unidade de conservação.

As investigações indicam que a criação de gado na Terra do Meio vai além de pequenos ocupantes. Há evidências de que a pecuária local está ligada a um esquema de 'esquentamento' de rebanhos. Segundo autoridades que acompanham a operação, grandes produtores rurais utilizam moradores e ocupantes como intermediários para manter animais de forma irregular dentro da unidade, mascarando a verdadeira origem e propriedade do gado.

Um dos casos investigados envolve um ocupante que possui mais de 500 cabeças de gado, volume que excede o entendimento firmado com o Ministério Público em 2005. Esse acordo permitia que dezenas de famílias que já viviam na região quando a unidade foi criada mantivessem pequenos rebanhos de subsistência, com limite de até 100 cabeças. As autoridades afirmam que o objetivo da investigação agora é identificar os responsáveis por financiar e organizar a utilização irregular das áreas.

Continuidade da operação

A operação do ICMBio segue em andamento, mas em outras áreas mais distantes do ponto de conflito onde houve a abordagem aos caminhões.