A 11ª Procissão ao Pai Bará do Mercado Central de Pelotas ocorre neste sábado, 13 de junho, a partir das 10h30, no calçadão da rua Andrade Neves, esquina com a Voluntários da Pátria. A data é celebrada como Dia Municipal do Orixá Bará, instituído pela Lei Municipal nº 7.025/2022, de autoria do vereador Paulo Coitinho. O evento, que mistura religiosidade, memória e luta contra o racismo religioso, percorre as ruas do centro até o Mercado Central, onde ocorre uma roda de saudação aos orixás ao meio-dia.

Origem e significado

Idealizada pelo babalorixá Juliano Silva da Silva, o Pai Juliano de Oxum, a procissão teve início em 2015, após um incêndio no Mercado Central. Lideranças de terreiro decidiram "reativar" a energia simbólica e espiritual do local, associado ao orixá Bará, divindade dos caminhos, do comércio e da abertura de passagens. Na primeira edição, o grupo levou pãezinhos consagrados e uma imagem de Santo Antônio, em referência ao sincretismo religioso. Ao chegar ao mercado, tocaram o sino central, que não soava havia anos.

No entanto, o ato também expôs a intolerância religiosa. "A primeira coisa que a gente se deparou foi com a forma escancarada do racismo religioso", afirma Pai Juliano. A partir dali, a procissão passou a ser também uma disputa pelo direito de ocupar o espaço público.

Resistência e reconhecimento institucional

Segundo Pai Juliano, a permanência do evento só foi possível graças à resistência do povo de terreiro e ao apoio de permissionários do mercado. Houve tentativas de constrangimento e reclamações sobre elementos religiosos deixados no local, como pipoca e moedas. Para ele, esses argumentos eram formas indiretas de racismo religioso.

O movimento buscou garantias legais: demarcação simbólica do Bará, instalação de redutor de velocidade, adesivo demarcatório autorizado pelo Iphan, placa, cartão-postal e, por fim, a lei municipal que instituiu o Dia do Orixá Bará. "A placa, o adesivo, o cartão-postal e o QR Code são formas de afirmar que a presença de Bará no mercado integra a história da cidade", diz o babalorixá.

Luta por políticas públicas

O babalorixá Rodrigo Domingues, presidente do Conselho Municipal do Povo de Terreiro de Pelotas (CMPTERPEL), avalia que a ocupação do centro da cidade representa um avanço, mas pondera que o reconhecimento institucional não elimina o preconceito. "Há o desafio de garantir que esse reconhecimento não seja apenas simbólico, mas que se traduza em políticas públicas efetivas de proteção, valorização e combate à intolerância religiosa", afirma.

Educação e memória

O Projeto Bará também atua na área educacional, aproximando a tradição de matriz africana das escolas. Pai Juliano explica que a abordagem pedagógica ajuda a desconstruir a demonização dos orixás, associando-os a elementos do cotidiano: Bará ao chaveiro, Ogum à tecnologia, Oxum às águas doces, entre outros. "Quando a gente traz isso pedagogicamente para a sala de aula, a gente explica que o orixá está presente no dia a dia", afirma.

A produtora cultural Diná Lessa Bandeira, da Projetar Sonhos, passou a apoiar o projeto em 2024 e criou o projeto Caminhos da Fé, aprovado em 2025. Ela defende que a intolerância religiosa seja tratada como racismo religioso. "Não é intolerância religiosa, é racismo religioso", afirma. A iniciativa incluiu seminário, exposição sobre orixás e atividades com escolas, em diálogo com a Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira.

Novidades da edição 2025

Uma das novidades deste ano é o lançamento do QR Code turístico do adesivo demarcatório da tradição de matriz africana e afrodiaspórica em referência ao Orixá Bará do Mercado Central, em parceria com a Secretaria Municipal de Turismo de Pelotas. O código dará acesso a informações sobre o significado do símbolo e sua relação com a história negra da cidade.

A programação se encerra com o Terreirão do Samba, das 16h30 às 19h, no Largo Edmar Fetter, em homenagem ao Dia Municipal do Orixá Bará, com o grupo Axé em Todos Cantos e convidados. Márcio Santos da Silva, assessor do vereador Paulo Coitinho, destaca a importância do samba na cultura negra de Pelotas: "Pelotas, por essa cultura de cidade negra, desenvolveu esse movimento fantástico".

Programação completa

  • 10h30 – Concentração no calçadão da rua Andrade Neves, esquina com Voluntários da Pátria
  • 11h – Saída da procissão em direção ao Mercado Central
  • 12h – Roda e saudação aos orixás no cruzeiro central do Mercado Central
  • 13h15 – Lançamento do QR Code turístico do adesivo demarcatório
  • 14h – Roda de conversa sobre enfrentamento ao racismo religioso, no Pátio 1 do Mercado Central
  • 16h30 às 19h – Terreirão do Samba no Largo Edmar Fetter

Com informações de Brasil de Fato.