A privatização da BR Distribuidora, concluída nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, transferiu à iniciativa privada a antiga estatal, hoje denominada Vibra Energia. Segundo artigo assinado por Cibele Vieira, da Federação Única dos Petroleiros (FUP), e Beto Palmeira, do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), a venda por cerca de R$ 21 bilhões – valor que os autores consideram abaixo do patrimônio real – retirou do Estado um instrumento de regulação de preços e garantia de abastecimento.
Alta do diesel e impacto nos alimentos
Em março de 2026, o diesel registrou alta de 13,9% em um mês, impulsionada pelo conflito no Oriente Médio e pelo petróleo acima de US$ 100. O artigo associa a elevação ao aumento do frete e da cesta básica, que subiu mais de 7% em Salvador e Manaus no mesmo período. Antes da privatização, a BR Distribuidora detinha cerca de 25% do mercado e 7,8 mil postos, o que permitia atuar como balizadora de preços. Com a venda, as distribuidoras privadas passaram a repassar imediatamente oscilações do petróleo e do câmbio.

Na Bahia, a Acelen, controladora da antiga Refinaria Landulpho Alves, reajustou o diesel oito vezes desde o início do conflito internacional, acumulando alta de 88%, enquanto a Petrobras segurou reajustes. Em Salvador, o litro do diesel atingiu R$ 8,20, pressionando os preços dos alimentos.
Impacto na Amazônia e na agricultura familiar
Cerca de 1 milhão de pessoas na Amazônia dependem de geradores a diesel para energia. Em comunidades como a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, famílias gastam até 40% da renda com combustível. O artigo sustenta que uma estatal poderia abastecer essas regiões a preço de custo, o que seria incompatível com a lógica privada.

No transporte rodoviário, o diesel representa entre 40% e 50% do custo do frete de alimentos. A agricultura familiar, responsável por verduras, legumes, frutas, leite e ovos, sofre mais intensamente que o agronegócio exportador. Muitos pequenos agricultores deixam de entregar alimentos ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) devido ao frete inviável.
Propostas legislativas e soluções
O contrato de privatização autorizou o uso da marca e proibiu a Petrobras de retornar ao setor por até 20 anos. O Projeto de Lei 1853, liderado pelo deputado Pedro Uczai (PT), autoriza a criação de uma nova empresa pública de distribuição de combustíveis. A proposta prevê recompor a presença estatal em logística, armazenagem e distribuição, priorizando regiões vulneráveis.

Outra medida defendida é o Programa Diesel e Gasolina da Agricultura Familiar, que concederia subsídios diretos a pequenos produtores via Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF). O benefício funcionaria como desconto na bomba ou abatimento proporcional à entrega ao Pnae e PAA. Quanto maior o fornecimento de alimentos saudáveis, maior o subsídio ao combustível utilizado em tratores, caminhões e veículos utilitários.
Os autores concluem que a luta pela reestatização da BR Distribuidora e das refinarias deve ser incorporada por movimentos sociais, pois envolve soberania energética, controle do custo dos alimentos e condições dignas de vida.
Com informações de Brasil de Fato — leia a matéria original.