Em 21 de março de 2018, Jerome Powell comandou sua primeira decisão de juros como presidente do Federal Reserve (Fed), elevando a taxa em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 1,50% a 1,75%. Quase nove anos depois, Kevin Warsh, sucessor de Powell, realizou sua primeira reunião de política monetária nesta quarta-feira (17), optando por manter os juros inalterados no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano.

O cenário econômico enfrentado por Warsh difere substancialmente daquele de Powell. Em março de 2018, a inflação medida pelo índice de preços para gastos pessoais (PCE) estava em 1,8% em 12 meses, abaixo da meta de 2%. Atualmente, o PCE de abril de 2026 acelerou para 3,8%, quase o dobro da meta tolerada. O núcleo do PCE, que exclui itens voláteis como energia e alimentos, subiu para 3,3% na mesma base de comparação.

Comunicado do Fed perde orientação futura

O comunicado da decisão de Warsh trouxe alterações significativas em relação ao texto anterior. O trecho que mencionava a avaliação da "magnitude e momento de ajustes adicionais" na taxa de juros foi removido, eliminando o chamado forward guidance. Também desapareceram as referências ao monitoramento contínuo de riscos e à disposição de ajustar a política monetária, se necessário.

Além disso, o Fed alterou a avaliação do mercado de trabalho: em vez de afirmar que os ganhos de emprego permaneciam baixos, passou a declarar que a criação de vagas acompanha o crescimento da força de trabalho. Pela primeira vez, destacou que o crescimento da produtividade e os investimentos de capital continuam fortes. Na inflação, o banco central abandonou a menção à alta recente dos preços globais de energia, atribuindo as pressões inflacionárias a choques de oferta que afetam diversos setores.

Força-tarefa para revisar práticas do Fed

Warsh anunciou a criação de uma força-tarefa responsável por examinar todas as práticas do Fed em cinco áreas: comunicados, balanço patrimonial, fontes de dados, produtividade e emprego, e balanço global. No caso do balanço patrimonial, serão analisados benefícios e riscos do regime de reservas amplas, tema que gera divergências entre os membros do banco central.

As forças-tarefas contarão com especialistas e apoio da equipe do Fed. Os trabalhos devem começar nas próximas semanas e terminar até o final do ano. Com base nos levantamentos, Warsh pretende propor alterações, inclusive na divulgação das projeções econômicas, como o gráfico de pontos (dot plot). Sobre este, Warsh afirmou: "O gráfico de pontos foi entregue com lápis que têm borrachas grandes", indicando falta de convicção nas projeções atuais.

No documento divulgado, o dot plot mostrou maior concentração de dirigentes projetando alta dos juros ainda neste ano. As apostas do mercado, compiladas pelo CME Group, indicam que a probabilidade de aumento foi antecipada de dezembro para outubro.

Mandato duplo e inflação acima da meta

O Fed possui mandato duplo definido pelo Congresso: estabilidade de preços (inflação em 2% no longo prazo) e pleno emprego. Warsh destacou que a meta de inflação de 2% não é atingida há cinco anos e afirmou: "Vamos corrigir isso. Temos a capacidade e o compromisso de manter a inflação em 2%." O grupo de trabalho sobre estrutura de inflação analisará os fatores que a impulsionam.

Questionado sobre possível revisão da meta, Warsh respondeu: "Não vejo motivo para rever a meta até que tenhamos atingido 2%."

Recado a Trump e reação inicial

Trump indicou Warsh para o comando do Fed, assim como fez com Powell, que depois enfrentou pressão do republicano por juros baixos. Já antes da coletiva, Trump havia criticado Warsh publicamente. Ao abrir a entrevista, Warsh afirmou: "Meus colegas e eu estamos aqui para seguir o mandato duplo do Fed", reforçando a independência do banco central. Em tom conciliador, Trump reagiu: "Temos uma ótima pessoa no Fed; estou sendo guiado por ele."