Os acontecimentos recentes — tarifaço de Donald Trump, ataques ao Pix, investigações comerciais contra o Brasil, classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, presença de Eduardo Bolsonaro em Washington e fotos de Flávio Bolsonaro com o presidente dos EUA — podem ser vistos como fatos isolados, mas também como parte de uma pressão crescente sobre o Brasil, justamente quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cresce nas pesquisas e se aproxima da reeleição em 2026.
De acordo com análise publicada na Revista Fórum, a história da América Latina mostra que grandes pressões externas raramente começam de forma explícita, mas vêm em etapas. O golpe militar de 1964, por exemplo, foi preparado durante anos com a construção do medo, difusão do fantasma do comunismo e mobilização religiosa, como as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que reuniram centenas de milhares de pessoas. A Operação Brother Sam, dos EUA, deu apoio logístico aos golpistas.
O resultado foi uma ditadura de 21 anos, com supressão de eleições, censura, tortura e pelo menos 435 mortos. A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 mostrou que a ruptura institucional ainda é uma possibilidade, mas desta vez fracassou. A Justiça brasileira condenou Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por articulação golpista, e ele lançou o filho mais velho como candidato para 2026.
A diferença decisiva em 2023 foi o apoio do governo Joe Biden à democracia brasileira. Em 2026, porém, o presidente dos EUA é Donald Trump, aliado da extrema direita brasileira. O Brasil, como maior economia da América Latina, integrante dos BRICS e com relação estratégica com a China, representa um desafio geopolítico para Washington.
A classificação de facções como terroristas amplia a margem de atuação dos EUA. A jornalista Andréia Sadi, do GloboNews, apontou que a estratégia da família Bolsonaro seria criar condições para contestar o resultado eleitoral, dificultar a posse e inviabilizar a governabilidade de Lula. A frase histórica de Carlos Lacerda, de 1950, resume a lógica: impedir o candidato de ser eleito, de tomar posse e de governar.
A pergunta central, segundo o texto, não é se 1964 ou 8 de janeiro se repetirão, mas o que acontece quando uma democracia que sobreviveu a um golpe enfrenta nova eleição sob ambiente internacional favorável às forças que contestaram as urnas. As grandes rupturas democráticas raramente começam com tanques; quando eles aparecem, o trabalho principal já foi feito.
Com informações de Revista Fórum.