Kevin Warsh mal assumiu a presidência do Federal Reserve (Fed) e já enfrenta o mesmo dilema de seu antecessor: equilibrar a independência do banco central diante de um mercado que projeta juros mais altos e de uma Casa Branca que deseja o oposto.

Na sexta-feira (5), após a divulgação do payroll de maio — que mostrou a criação de 172 mil vagas, superando a estimativa de 85 mil, com desemprego estável em 4,3% —, o presidente Donald Trump comentou os números a bordo do Air Force One. Ele classificou os dados como “muito bons” e “muito melhores do que o esperado”, mas fez questão de dissociá-los de riscos inflacionários. “Crescimento não significa inflação”, disse Trump, tentando enfraquecer o argumento de quem defende cautela na política monetária.

Trump citou Warsh pelo nome e afirmou que deixará a decisão sobre corte de juros “a cargo” do novo presidente do Fed na reunião de outubro, acrescentando que “não se importaria” se ele optasse por reduzir as taxas. O republicano não explicou por que mencionou o encontro de outubro, marcado para os dias 27 e 28, que ocorre poucos dias antes das eleições de meio de mandato nos EUA.

Mercado aposta em alta de juros

Enquanto Trump pressiona por juros menores, o mercado segue na direção oposta. A ferramenta FedWatch, do CME Group, mostrou uma reprecificação expressiva após o payroll. A probabilidade de alta de juros na reunião de setembro saltou de 23% para 38%. Para outubro, a aposta em aperto já superou a de manutenção, chegando a 50,5%. Em dezembro, a chance de pelo menos uma elevação dos juros até o fim do ano avançou de 58% para 70%.

A única certeza, por ora, é que junho será de calmaria: 98% do mercado aposta em manutenção da taxa nos atuais 3,50% a 3,75% ao ano na próxima reunião do Fomc, nos dias 16 e 17 deste mês.

A consultoria Capital Economics avaliou que o resultado do payroll aproxima o Fed de “algumas altas preventivas” ainda em 2026. Se o mercado de trabalho não piorar significativamente nos próximos meses, setembro pode marcar o início de um novo ciclo de aperto monetário — o oposto do que Trump deseja.

Impacto para o investidor brasileiro

Juros mais altos nos EUA tendem a fortalecer o dólar globalmente, pressionando o real e encarecendo importações. Além disso, um ambiente de juros elevados aumenta a atratividade dos títulos norte-americanos, o que pode reduzir o apetite por ativos de mercados emergentes, incluindo o Brasil.

Warsh herda, portanto, não apenas a cadeira de Powell, mas também o mesmo dilema: como conduzir a política monetária com autonomia quando o inquilino da Casa Branca acompanha cada decisão de perto e não hesita em opinar publicamente.

Com informações de Seu Dinheiro.