O povo Laklãnõ/Xokleng, por meio do Instituto Zág, está restaurando a floresta de araucárias em seu território tradicional no interior de Santa Catarina. A araucária (Araucaria angustifolia), considerada sagrada para o povo, é uma espécie criticamente ameaçada de extinção. Desde 2016, quase 100 mil mudas foram plantadas, somando mil hectares de áreas reflorestadas, incluindo nascentes e áreas degradadas.

Significado cultural e ameaça de extinção

Para os Xokleng, a araucária vai além da alimentação: está presente na cultura, na história e nos mitos de origem. “As araucárias são sagradas para nós. Não tem como contar a história do nosso povo sem falar sobre ela”, afirma Carl Gakran, diretor-executivo do Instituto Zág. A espécie, que existe há cerca de 200 milhões de anos, ocupa hoje menos de 3% de sua área original, que abrangia Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e partes de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. O povo Xokleng também enfrenta riscos de extinção cultural e linguística, segundo Carl.

Histórico do projeto e envolvimento comunitário

Carl decidiu agir em 2016 ao descobrir que a araucária estava na lista de espécies em perigo da IUCN como criticamente ameaçada. Inicialmente, plantou dez mudas em casa e, com oficinas, produziu mais de mil. No ano seguinte, fundou o Instituto Zág. Desde então, foram produzidas mais de 140 mil mudas, com taxa de sucesso de plantio de 70% a 80%. O instituto envolve a comunidade, principalmente escolas, em mutirões durante férias e doa mudas para famílias plantarem em seus terrenos. Entre 30 e 40 pessoas atuam diretamente, chegando a 60 nas épocas de colheita e distribuição.

Igualdade de gênero e técnicas tradicionais

Metade dos participantes ativos são mulheres, segundo o casal Carl e Isabel Gakran, vice-presidente e diretora ambiental. “São ‘as mulheres que plantam zág’, como dizemos”, relata Isabel. A produção de mudas segue a tradição indígena: colhem 60% das sementes, respeitando a árvore e os animais, e realizam rituais. Utilizam técnicas de arvorismo sem esporas para não danificar as árvores. As sementes são misturadas para manejo genético, germinadas em saquinhos biodegradáveis de cana-de-açúcar e mantidas sob telhado de palha com sombrite. Após um ano, as mudas são distribuídas. As primeiras árvores plantadas já têm dez anos e 5 metros de altura (uma araucária pode ultrapassar 50 metros).

Contexto territorial e resistência

A Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ, onde vivem cerca de 2 mil pessoas (Laklãnõ/Xokleng, Guarani e Kaingang), está nos municípios de José Boiteux, Doutor Pedrinho, Vitor Meireles e Itaiópolis. Historicamente, o povo sofreu perseguições, deslocamentos forçados e confinamento, especialmente após o “contato pacífico” de 1914 e a construção da Barragem Norte (1970-1990), que alterou a paisagem e causou impactos sociais e ambientais. O reflorestamento, segundo a historiadora Georgia Fontoura (Furb), é “uma estratégia de resistência territorial, cultural e espiritual”. O instituto também replanta em áreas sob discussão no STF sobre o marco temporal, como forma de demarcação.

Planos futuros e sustentabilidade

O Instituto Zág se mantém com recursos de editais e prêmios, como da Fundação Rockefeller, e doações. Os próximos passos incluem monitoramento com tecnologia (drones, IA), retirada de espécies exóticas (pínus, eucalipto) e produção de mudas de juçara, sassafrás, imbuia e xaxim. Pretende-se ainda investir em etnoturismo, agroflorestas, derivados do pinhão (farinha) e mel de abelhas nativas para gerar renda. “Nossa visão de futuro é estarmos mais estruturados e apoiar outras iniciativas por meio de um fundo voltado para florestas de araucária”, conclui Carl.