O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, reclamou com o empresário Thiago Miranda, sócio do Portal Leo Dias, após o site publicar uma reportagem sobre a produção do filme “Dark Horse”, em 1º de agosto de 2025. O longa-metragem conta a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Cerca de uma hora depois, o texto foi apagado.

Mensagens obtidas com exclusividade pelo Intercept Brasil indicam o alto grau de envolvimento de Vorcaro com o filme. O banqueiro foi o principal financiador do longa, mas a conversa com Miranda mostra que ele não se limitou a enviar dinheiro: ao criticar a notícia para alguém diretamente envolvido com o portal e com o filme, Vorcaro também buscava controlar a repercussão do assunto na mídia.

‘Tínhamos combinado de não divulgar nada’

Em 1º de agosto de 2025, às 12h07, Vorcaro enviou uma mensagem a Miranda pelo WhatsApp demonstrando irritação com a revelação do projeto. “Opa tudo bem? Achei que divulgar que ta fazendo o filme muito ruim, nao acha?”, escreveu Vorcaro. Dono da agência Mithi, Miranda intermediou os repasses de Vorcaro para o longa e articulou uma campanha coordenada de influenciadores contra o Banco Central, como mostrou o Intercept.

Às 12h40, Miranda respondeu concordando com o banqueiro e disse que tentaria descobrir o que houve. “Acho muito!! Tínhamos combinado de não divulgar nada. Vou entender agora com o Mário”, respondeu. Possivelmente se referia ao deputado federal Mario Frias (PL-SP). O Intercept mostrou que, junto com o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Frias assinou contrato como produtor-executivo do longa. “Mas soltou no Leo. Mto ruim”, criticou Vorcaro.

Às 12h46, Miranda disse ao banqueiro que tomaria providências: “Acabei de ver. Vou pedir pra apagar”. Em seguida, afirmou ter conversado com “Mário e Flávio”, possivelmente Mario Frias e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) – que, segundo o Intercept, negociou com Vorcaro R$ 134 milhões para financiar o filme. Também pode ser referência ao empresário Flávio Carneiro, apontado por Miranda como sócio oculto de Vorcaro.

O sócio do Portal Leo Dias disse que, como haviam começado “as gravações e testes”, a notícia vazou. “Mas não vai aparecer nome de ninguém. Eles me garantiram isso”, destacou. Às 12h49, tentou tranquilizar Vorcaro: “Já mandei deletar”. Ainda assim, o banqueiro voltou a demonstrar descontentamento: “Mas você mesmo divulgar”. Miranda concordou novamente às 12h55: “Vc tá certo. Como ninguém sabe de nada, eles fizeram e não passou por mim. Foi erro meu. Mas já mandei apagar”. Às 13h06, confirmou que o pedido foi atendido: “Resolvido. Flavio disse que vai te dar uma ligada tb”.

A notícia excluída

A reportagem foi publicada às 11h do dia 1º de agosto. O conteúdo foi removido, mas uma cópia foi salva no Internet Archive. Com o título “História de Bolsonaro vira filme nos EUA; ex-presidente será retratado como herói”, o texto antecipava a sinopse de “Dark Horse”, que descreve Bolsonaro como “um homem corajoso e determinado, impulsionado pela carreira política após a decepção com os rumos do seu amado país”.

A matéria mencionava o diretor Cyrus Nowrasteh, o produtor Michael Davis e a diretora de elenco Ricki G. Maslar. Também afirmava que atores foram selecionados para interpretar os filhos Flávio, Carlos, Eduardo e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. O ator Jim Caviezel, que viveria Bolsonaro, não era citado. O texto dizia que seriam amenizadas as “polêmicas e controvérsias” e que o atentado em Juiz de Fora estaria no filme. Não havia menção a valores ou financiadores.

Por meio da advogada Hallyne Marques, o Portal Leo Dias alegou que o conteúdo foi retirado do ar após dúvidas internas sobre a apuração. “Recebemos o material de uma fonte e, como não estávamos 100% convictos da apuração, acabamos por retirar do ar. A decisão passou por Thiago Miranda, então CEO do portal”, diz a nota. A defesa de Daniel Vorcaro disse que não se manifestaria. Thiago Miranda não retornou o contato do Intercept.

O Portal Leo Dias só voltou a falar sobre o filme em 6 de dezembro de 2025, quando a crise do Banco Master já havia resultado na primeira prisão de Vorcaro. Naquele dia, vazaram no X as primeiras imagens da gravação. Um dia depois, Leo Dias compartilhou um vídeo mostrando Jim Caviezel caracterizado como Bolsonaro. Em nota, o portal afirmou que as informações eram mais consistentes, com fotos e vídeos, e que Flávio Bolsonaro falou oficialmente sobre o filme em entrevista ao vivo.

Vorcaro foi detido pela primeira vez em 17 de novembro de 2025, na Operação Compliance Zero. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro. Vorcaro foi solto em 28 de novembro com medidas restritivas, como tornozeleira eletrônica. Flávio Bolsonaro o visitou pessoalmente um dia após a soltura, encontro confirmado pelo senador em 19 de maio de 2026. Vorcaro foi preso novamente em 4 de março de 2026.

‘Que Deus nos abençoe nessa nova saga’

Em entrevista ao jornal O Globo em 18 de maio de 2026, Thiago Miranda revelou que Vorcaro fez investimentos milionários para montar um império de mídia. Apresentou um contrato de venda de 17% do Portal Leo Dias por R$ 10 milhões, em 19 de julho de 2024, para Flávio Carneiro – apontado como representante de Vorcaro. Carneiro negou ser sócio oculto.

Relatório do Coaf obtido pelo Estadão/Broadcast mostra que a Leo Dias Comunicação e Jornalismo recebeu ao menos R$ 9,9 milhões do Banco Master entre fevereiro de 2024 e maio de 2025. A advogada de Leo Dias afirmou que o valor se refere a um contrato de publicidade de um ano com o Will Bank. A empresa também obteve R$ 2 milhões da LD Produções, de Flávio Carneiro.

Em janeiro de 2026, Leo Dias divulgou nota comunicando que “Thiago Miranda iniciou processo de transferência da participação societária minoritária no fim de 2025” e reiterou seu “compromisso com a transparência, a ética jornalística e a correta prestação de informações ao público”.

O papel de Miranda no filme

Thiago Miranda exerceu coordenação e articulação nos bastidores do filme. As mensagens mostram que ele organizou agendas, acompanhou tratativas jurídicas, transmitiu cobranças, monitorou o cronograma financeiro e administrou a repercussão pública. Em depoimento à Polícia Federal, afirmou ser responsável pela “gestão de crise” do banqueiro. Disse que conheceu Vorcaro em julho de 2024 e manteve contato quase diário até a prisão.

Em 15 de dezembro de 2024, Miranda disse a Vorcaro que a equipe apresentaria “o projeto e valores”. Em 20 de janeiro de 2025, durante viagem de Vorcaro a Courchevel, Miranda cobrou o primeiro aporte: “Hoje é a data limite daquele primeiro aporte filme. Preciso acelerar. Estamos no laço”. Enviou print de conversa com Flávio Bolsonaro, que o cobrou sobre pagamento a roteiristas. Vorcaro respondeu: “Vou atras aqui”.

Em fevereiro de 2025, Miranda disse que “o filme está parado” por dificuldades com remessas internacionais. Vorcaro explicou que estava “com problema pra fazer o cambio”. Em março de 2025, Miranda assumiu a coordenação: “Quero alinhar com vc para que eu possa assumir tudo daqui para frente”. Disse ter encaminhado alterações contratuais e intermediado contatos internacionais.

Com informações de Intercept Brasil.