O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) denunciou 14 suspeitos de integrar uma organização criminosa neonazista, entre eles uma escrivã da Polícia Civil e um policial militar do estado de São Paulo. A denúncia, apresentada pela 39ª Promotoria de Justiça da Capital na segunda-feira (15 de junho), abrange suspeitos que atuavam em uma rede que se estendia por Santa Catarina, São Paulo e Paraná. Todos responderão por organização criminosa, e oito deles também por racismo e apologia ao nazismo. A denúncia agora aguarda análise do Judiciário para que os acusados se tornem formalmente réus.
Denúncia do MPSC
De acordo com o MPSC, os policiais paulistas ocupavam posições de destaque no grupo, atuando como linha de frente de apoio logístico e operacional de um líder central, chamado pelos integrantes de “Führer brasileiro”. A investigação apontou que o grupo se autodenominava neonazista e usava como símbolo o “Sol Negro”, um emblema do ocultismo nazista e da supremacia ariana, com um fuzil AK-47 adicionado ao centro da imagem.
Funcionamento do grupo
Para ingressar na organização, os interessados preenchiam fichas detalhadas e passavam por um ritual de “batismo” oficial, segundo o MPSC. Após aceitos, pagavam mensalidades obrigatórias para custear panfletos de propaganda, insumos e manutenção das atividades, além de receberem uma camiseta que servia como uniforme. O grupo realizava encontros presenciais frequentes para debater a expansão da ideologia e planejar os chamados “rolês”: patrulhamentos coordenados em vias públicas voltados a caçar, perseguir e agredir opositores ideológicos.
Os investigadores descobriram dossiês com fotos e dados de potenciais alvos de violência. A liderança também distribuía cartilhas com orientações de segurança digital e criptografia para evitar que as autoridades vinculassem os membros entre si.
Operação Nuremberg
As investigações foram aprofundadas após a deflagração da Operação Nuremberg, coordenada pelo CyberGaeco e pelo Gaeco do MPSC em outubro de 2025. Foram cumpridos 21 mandados de busca e apreensão simultâneos em diferentes regiões do país, incluindo as cidades paulistas de São Paulo, Campinas, Taboão da Serra e Osasco. Durante as diligências, as equipes encontraram farto material de propaganda nazista, além de facas, armas brancas e socos-ingleses prontos para uso em confrontos de rua. A operação contou com apoio do Ministério Público de São Paulo, Sergipe e Paraná, e da Polícia Civil de São Paulo. O nome da operação faz alusão aos Julgamentos de Nuremberg, tribunal militar internacional após a Segunda Guerra Mundial que estabeleceu marcos para a responsabilização de criminosos por atos de barbárie e extremismo.
Medidas administrativas
Em resposta a questionamentos da Ponte, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que, após ter ciência da denúncia, afastou o policial militar denunciado de atividades operacionais. A escrivã denunciada responde a um processo administrativo. A Corregedoria da Polícia Civil concluiu em novembro de 2024 a investigação referente a uma agressão ocorrida em 2021 no bairro de Pinheiros, região oeste da capital paulista, indiciando os investigados e encaminhando os autos ao Poder Judiciário e ao Ministério Público. Em paralelo, foi instaurado um Processo Administrativo Disciplinar e uma Apuração Preliminar para esclarecer as responsabilidades da escrivã na esfera administrativa, os quais seguem em andamento. Na Polícia Militar, após tomar conhecimento da denúncia, a corporação determinou o afastamento do policial das atividades operacionais e instaurou procedimento para apurar os fatos. A SSP reforçou que as polícias paulistas não compactuam com desvios de conduta e adotam medidas rigorosas para apuração e responsabilização dos envolvidos.