O Brasil enfrenta mais um ciclo de desaceleração econômica, com o Produto Interno Bruto (PIB) crescendo apenas 2% no acumulado de doze meses encerrados em março de 2026, segundo dados do IBGE. Esse é o pior resultado do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o mais fraco desde 2021, quando o país ainda sofria os efeitos da pandemia. O desempenho foi sustentado por dois fatores: a agropecuária, que cresceu 7% com nova safra recorde, e o consumo do setor público, que aumentou 2,3% nas três esferas de governo. Sem esses motores, os números seriam ainda mais decepcionantes.

Para tentar conter o estrago, o governo Lula lançou ou ampliou mais de dez programas de crédito e subsídios ao longo de 2026, com impacto potencial de 190 bilhões de reais sobre o consumo, conforme cálculos da XP Investimentos. A corretora estima que essas medidas responderão por 1,4 ponto percentual dos 2% de crescimento previstos para o PIB. Sem esse impulso oficial, a economia avançaria apenas 0,6%. “O problema é que são estímulos que não levam a um crescimento sustentável”, afirma Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados. “Eles ajudam só no curto prazo. Em 2027, a desaceleração deve ficar mais clara.”

Lista de incentivos

A lista de incentivos inclui a isenção do Imposto de Renda para trabalhadores que recebem até 5.000 reais por mês, em vigor desde janeiro, além da ampliação do Minha Casa, Minha Vida, uma nova rodada do Desenrola para renegociação de dívidas e uma linha de crédito subsidiado para motoristas de aplicativos. Todas as iniciativas colocam mais dinheiro em circulação e ajudam a mascarar a perda de dinamismo da economia. “Há até alguns dados bons nos primeiros meses, mas eles não interrompem o ciclo de desaceleração pelo qual estamos passando”, diz o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, sócio da Tendências Consultoria. “Não dá para dizer que a economia vai bem porque, se o objetivo do Brasil for virar um país rico, não é um crescimento de 2% que vai nos levar até lá.”

Contradição e desequilíbrio

A desaceleração não pode ser revertida apenas por programas de incentivo ao consumo. No curto prazo, pesam os juros elevados e o endividamento recorde de famílias e empresas, que reduzem o espaço para novos gastos e investimentos. A estratégia do governo esbarra em uma contradição: quanto mais recursos são injetados na economia, maior tende a ser a pressão sobre a inflação e, consequentemente, mais difícil se torna reduzir os juros. Esse é o desafio do ministro da Fazenda, Dario Durigan, que precisa conciliar estímulos com a necessidade de criar condições para flexibilizar a política monetária.

O Brasil enfrenta um limite baixo de crescimento potencial, estimado em torno de 2% ao ano, segundo o mercado e o próprio governo. Esse teto é determinado por fatores como produtividade, qualificação da mão de obra, nível de investimento e qualidade da infraestrutura. Quando a demanda cresce mais rápido que a capacidade de produção, surgem pressões inflacionárias, os juros permanecem elevados e o endividamento aumenta. “O Brasil é mais instável que os países desenvolvidos”, afirma Aloisio Campelo Junior, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) e integrante do Codace, comitê que data os ciclos econômicos. “Temos recessões mais frequentes e, em geral, mais profundas.”

Produtividade estagnada

Mudar esse cenário exige ampliar a capacidade de crescimento, o que depende de mais investimentos e ganhos de produtividade. De 2020 a 2025, o ganho médio de produtividade foi de apenas 0,3% ao ano, segundo a FGV. Os investimentos avançaram modestos 0,4% nos doze meses encerrados em março. “Nosso crescimento recente se deu contratando mais pessoas e com poucos ganhos de produtividade”, diz Silvia Matos, coordenadora do Observatório da Produtividade da FGV. “Agora que o desemprego está nas mínimas e não tem mais tanta gente para contratar, vamos crescer como?” Enquanto esses indicadores permanecerem estagnados, o Brasil seguirá condenado a crescer pouco, por mais que o governo gaste para dar empurrões.

Com informações de Veja.