A Polícia Federal (PF) descobriu um plano articulado por Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, para forjar um flagrante de drogas contra o ex-jogador da NBA Ronald Fred Seikaly e submetê-lo à “pressão da milícia e da polícia”. As conversas entre Vorcaro e o líder do grupo criminoso “A Turma”, interceptadas em outubro de 2024, foram divulgadas nesta terça-feira (16) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da investigação do caso Master.

Plano de flagrante e pressão criminosa

Nos diálogos, Vorcaro não escondeu suas intenções. O banqueiro planejou uma emboscada contra Seikaly, que atuou na NBA entre 1988 e 1999 e hoje trabalha como DJ e produtor musical em Miami. O plano central era simular um flagrante com drogas para incriminar o ex-atleta. Vorcaro afirmou que investiria até R$ 10 milhões na empreitada, justificando o valor com a frase “ensinar que com filho não se mexe”, embora a PF não tenha esclarecido a que exatamente ele se referia.

Uma segunda alternativa foi cogitada: atrair Seikaly ao Brasil, possivelmente ao Rio de Janeiro ou a Belo Horizonte, e submetê-lo à pressão de milícia e polícia. A mobilização de recursos e a disposição de acionar estruturas violentas e ilegais revelam a dimensão da perseguição pessoal orquestrada, segundo as investigações.

Mobilização de grupo criminoso e uso de informações sigilosas

A execução do plano ficou a cargo de “A Turma”, grupo criminoso pago por Vorcaro para intimidar e espionar desafetos, liderado por Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, que se suicidou na prisão. Para levantar informações sobre Seikaly, os integrantes do grupo não hesitaram em comprometer órgãos do Estado: utilizaram o login de uma servidora do Ministério Público Federal (MPF) para produzir um ofício falso endereçado à Interpol, buscando dados sobre o ex-atleta. O grupo também acessou informações sigilosas de sistemas internos da PF e do MPF, incluindo buscas no sistema de controle migratório.

Vorcaro chegou a pedir que o grupo acionasse um suposto “amigo da Interpol” para auxiliar na ação, mas as investigações não identificaram esse contato. O uso de credenciais de servidores públicos e de bases de dados sigilosas para perseguição privada configura, segundo a PF, a captura de instituições do Estado por interesses particulares, viabilizada pelo poder econômico do contratante.

Motivação pessoal e monitoramento

A origem do plano é pessoal e remonta ao histórico de Martha Graeff, modelo que foi namorada de Vorcaro e tem uma filha com Seikaly, fruto de um relacionamento anterior com o ex-jogador. Nas conversas interceptadas, Vorcaro revelou à própria Martha que havia contratado uma “equipe de solo e digital” para monitorar os passos de Seikaly. Documentos levados à CPI do INSS mostram que Mourão avisou Vorcaro sobre a retirada de uma página da internet que mencionava o relacionamento de Martha com Seikaly. Dias antes, o banqueiro comentou com a namorada que sua “turma do digital” conseguiu “tirar seu negócio do Google de casada com Rony”.

Desdobramentos e consequências legais

Os detalhes constam do relatório da investigação da PF no caso Master, tornado público pelo ministro André Mendonça. O próprio documento registra que, apesar do plano inicial de flagrante com drogas, o grupo aparentemente optou por uma abordagem diferente: a intimidação via ofício falso à Interpol. A escolha partiu de uma avaliação de Vorcaro, que afirmou acreditar que “a pressão da Interpol iria assustar mais”. A defesa de Vorcaro não se manifestou quando procurada por veículos de imprensa, segundo a Folhapress.

A investigação ganhou novo fôlego com a autorização de Mendonça para acesso aos dados da nuvem de “Sicário”, o que, segundo a PF, sugere novos desdobramentos. Os documentos já tornados públicos indicam que o esquema não se limitou a conversas: houve tentativa concreta de execução, com falsificação de documentos, acesso indevido a sistemas sigilosos e mobilização de uma estrutura criminosa financiada por um dos principais banqueiros do país. As consequências legais para Vorcaro e os demais envolvidos seguem em aberto.