A Polícia Federal, por meio da Operação Compliance Zero, revelou novos vínculos entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. A investigação apura suspeitas de fraude financeira, corrupção e lavagem de dinheiro. Documentos apreendidos descrevem uma relação de alto grau de intimidade, confiança e proximidade, com registros que vão desde hospedagens em hotéis de luxo na Europa até repasses de milhões de reais.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), também consta nos documentos como beneficiário de hospedagens custeadas por Vorcaro. Ciro Nogueira não se manifestou até o fechamento desta edição.

Hospedagens de luxo em Lisboa

Em junho de 2024, Vorcaro bancou as estadias de Ciro Nogueira e Hugo Motta no hotel Four Seasons Ritz, em Lisboa. Mensagens enviadas no dia 18 de junho a um auxiliar indicam que seriam necessárias reservas entre os dias 24 e 30 para ele próprio e “mais dois quartos para Ciro e Hugo”. Foram cinco diárias em suítes júnior, com custo aproximado de R$ 91,3 mil por hóspede, cerca de R$ 18 mil por noite.

Questionado, Hugo Motta afirmou não ver problema na cortesia. “É um evento corporativo, um encontro jurídico que inclusive participei neste ano como presidente da Câmara, então não vejo problema algum”, declarou. Ele acrescentou ter tranquilidade sobre suas relações e defendeu o prosseguimento das investigações.

A PF identificou que a hospedagem em Lisboa não foi um caso isolado para Ciro, mas parte de um padrão em que Vorcaro custeava despesas pessoais do senador de forma sistemática, mantendo o nome do parlamentar fora das faturas diretas.

Pagamentos em espécie e viagens internacionais

Além das hospedagens, a PF encontrou mensagens que indicam pagamentos em dinheiro vivo ao senador. Em agosto de 2025, Vorcaro ordenou a seu cunhado, Fabiano Zettel, que resolvesse pendências financeiras. Entre os itens constava o registro “Espécie Ciro 350k”, interpretado pelos investigadores como referência a um pagamento de R$ 350 mil. A polícia afirma que não há comprovação de que o valor tenha sido efetivamente entregue.

Os documentos registram uma sequência de viagens internacionais custeadas por Vorcaro em benefício de Ciro. Em abril de 2024, o senador jantou no restaurante italiano Gigi, em Paris, com conta de US$ 1.981. Mensagens mostram que Vorcaro orientou o auxiliar: “Não vai deixar eles pagarem, ok?”. Em maio do mesmo ano, Ciro participou do Lide Brazil Investment Forum, em Nova York, hospedado por seis noites no Park Hyatt em suíte royal, com custo total de US$ 47,7 mil.

Em janeiro de 2025, os gastos chegaram aos Alpes franceses. A PF identificou despesas em Courchevel, estação de esqui de luxo, com R$ 63,6 mil em um restaurante e R$ 58,5 mil em outro. Registros de cartões de Vorcaro na região somam R$ 1,85 milhão, incluindo compras na grife Loro Piana. No total, apenas os benefícios diretos em viagens internacionais atribuídos a Ciro somam R$ 468,7 mil, sem contar deslocamentos em jatos particulares.

Evento exclusivo e lista de convidados

O mesmo período das hospedagens em Lisboa coincidiu com um evento organizado por Vorcaro com acesso estritamente controlado. Em mensagem de áudio, ele disse: “Pode ser o papa que não pode entrar ninguém que não esteja na lista.” Solicitou ainda a privatização do espaço em frente ao restaurante para evitar visualização externa. O encontro ocorreu durante o Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido como Gilmarpalooza, liderado pelo ministro do STF Gilmar Mendes.

A lista de convidados confirmados incluía Ciro Nogueira, Hugo Motta, o ex-ministro Fábio Faria e o líder do PP na Câmara, Dr. Luizinho (RJ). Fábio Faria afirmou não ter viajado a Lisboa em 2024. Os demais não se manifestaram.

Projeto de lei sob suspeita

A relação entre Ciro e Vorcaro também envolveu iniciativa legislativa. Em 2024, o senador apresentou proposta para ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura de investimentos garantidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Segundo a PF, o texto reproduzia na íntegra um documento produzido pelo Banco Master, instituição que se beneficiaria diretamente da medida, pois vendia CDBs de alta remuneração usando a cobertura do FGC como atrativo.

Mensagens mostram que Vorcaro acompanhava a tramitação com expectativa. Um ex-diretor jurídico do banco chegou a dizer: “Você sextuplica seu negócio. Bora.” Um ex-diretor do Banco Central também afirmou a Vorcaro que o mercado associava a emenda ao nome do ex-banqueiro e ao então presidente do BC, Roberto Campos Neto. A proposta foi rejeitada. A assessoria de Campos Neto informou que ele atuou institucionalmente contra a medida, determinando uma força-tarefa para fundamentar manifestação técnica contrária, na mesma linha da Febraban e do próprio FGC.

Repasses milionários e indícios de lavagem

O conjunto de benefícios identificado pela PF chega ao que os investigadores descrevem como o núcleo central da relação: repasses milionários. Entre 2024 e 2025, Vorcaro transferiu ao menos R$ 6 milhões ao senador por meio de empresas ligadas às duas famílias. Os valores começaram em R$ 300 mil mensais e chegaram a R$ 500 mil. Em troca de mensagens, o primo de Vorcaro questiona se deve “continuar os 500k ou pode ser os 300k?”, sugerindo aumento nos repasses.

A PF identificou indícios de lavagem de dinheiro nessas operações. Empresas da família do senador, como a CN Motos e a CNLF Empreendimentos Imobiliários, teriam sido usadas para ocultar os recursos, com depósitos fracionados em espécie — padrão associado a tentativas de burlar mecanismos de controle financeiro.

Investigação em curso

A Polícia Federal aponta indícios dos crimes de corrupção passiva, corrupção ativa, organização criminosa, lavagem de dinheiro e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. O caso tramita sob relatoria do ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Na terça-feira (16), a Segunda Turma manteve, por maioria, as prisões do pai e do primo de Vorcaro. O ministro Gilmar Mendes foi o único a votar pela soltura, ficando vencido.