A Polícia Federal deflagrou na quinta-feira 18 a nona fase da Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema de fraudes envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro. O senador Jaques Wagner (PT-BA) é um dos alvos das medidas cautelares autorizadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. A investigação apura possíveis crimes financeiros, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Suspeitas em três frentes

De acordo com a decisão do STF, a PF concentra as suspeitas contra Jaques Wagner em três linhas: a suposta aquisição, por meio de estruturas empresariais ligadas ao grupo investigado, de um apartamento de alto padrão em Salvador (BA); repasses financeiros à BN Financeira, empresa vinculada ao núcleo familiar do senador; e uma possível atuação no Senado em temas de interesse do Banco Master, como mudanças nas regras do crédito consignado, propostas relacionadas ao Fundo Garantidor de Créditos e discussões sobre a tentativa de aquisição do banco pelo BRB.

Os investigadores apontam uma suposta relação ilícita entre Wagner, Vorcaro e o empresário Augusto Lima, descrito como ex-sócio e gestor ligado ao Banco Master. Augusto seria o principal interlocutor do senador junto ao grupo econômico e teria coordenado a entrega de supostas vantagens indevidas ao congressista e a pessoas de seu entorno.

Evidências de proximidade

A investigação cita mensagens, chamadas telefônicas, viagens em aeronaves particulares e encontros entre Wagner e Augusto Lima como indícios da proximidade. Um dos elementos destacados é uma troca de mensagens de março de 2025 sobre a negociação para a venda do Banco Master ao BRB. Ao explicar a operação ao senador, Augusto Lima escreveu: “Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!” Para a PF, a mensagem reforça a suspeita de que Wagner não era apenas um destinatário de informações, mas um interlocutor relevante em assuntos estratégicos para o grupo investigado.

Os investigadores afirmam ainda que Augusto Lima recebeu de Wagner informações sobre um apartamento no empreendimento Poème Horto, em Salvador, e repassou os dados a operadores financeiros ligados ao grupo de Daniel Vorcaro para viabilizar a compra. Também teria coordenado pagamentos destinados à BN Financeira, mantido interlocução frequente com o senador sobre assuntos de interesse do Banco Master e encaminhado informações sobre temas como a operação de venda da instituição ao BRB, propostas legislativas, requerimentos no Senado e a CPI do Banco Master.

Medidas cautelares e reação

A PF cumpre 18 mandados de busca e apreensão expedidos pelo STF, com atuação na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal. Inicialmente, a corporação informou que haveria monitoramento por tornozeleira eletrônica, mas depois retificou: as medidas incluem proibição de contato entre investigados e suspensão de passaportes. Para Wagner, a decisão determinou apenas a proibição de contato com os demais investigados e com pessoas ligadas ao empreendimento imobiliário citado, sem suspensão do passaporte ou outras restrições pessoais.

Em fevereiro, Jaques Wagner negou irregularidades. Afirmou que “o PT da Bahia não tem nada a temer” e disse que a relação com Augusto Lima teve origem na venda de uma rede de supermercados estatal da Bahia, quando o empresário atuava no setor de cartões de benefícios. “Os trambiques ou os malfeitos do Banco Master é lá com eles [com a oposição], não têm nada a ver com a compra que a gente fez aqui”, declarou. Wagner também disse que “quem estourou o escândalo foi o Banco Central, cujo presidente [Gabriel Galípolo] foi nomeado pelo presidente Lula” e que está “muito tranquilo” com a situação.

Em nota, a PF afirmou que “os fatos investigados podem caracterizar, em tese, os crimes de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro”.