A Polícia Federal deflagrou a nona fase da Operação Compliance Zero na última quinta-feira (19), tendo como um dos alvos o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado. A investigação apura possíveis vínculos entre o entorno familiar do parlamentar e suas empresas com pessoas ligadas ao liquidado Banco Master.
Segundo a PF, foram identificados indícios de “recebimento de vantagens econômicas indevidas pelo parlamentar, direta ou indiretamente”, por meio de familiares, pessoas de confiança e estruturas societárias relacionadas ao banco. Durante a operação, foram encontrados cerca de 55 mil dólares (R$ 284,1 mil) e 33 mil euros (R$ 196,3 mil) em endereços vinculados ao senador em Brasília e Salvador. Os valores estavam em um quarto de hotel na capital federal, onde o petista costuma se hospedar.
Supostas vantagens e ligações com o Banco Master
A PF sustenta que o senador mantinha contato direto com Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Master, responsável por operações financeiras e envio de benefícios ao político. Entre as supostas vantagens, está o pagamento de um apartamento avaliado em R$ 2,4 milhões em Salvador (BA). Em conversa interceptada, o parlamentar teria enviado o contato do gerente da construtora a Augusto, informando a unidade e o valor do imóvel: “A unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi”. O imóvel teria sido adquirido pela Epítome S.A., empresa comandada por Luiz Antônio Lombardi, apontada como laranja na negociação.
Além do apartamento, a PF apontou outras vantagens, como:
- Uso gratuito de jatinhos particulares vinculados a Augusto Lima ou ao Banco Master;
- Recebimento de ingressos para shows internacionais realizados em Los Angeles (EUA);
- Pagamentos a uma empresa ligada ao núcleo familiar do parlamentar.
A amizade entre Jaques Wagner e Augusto Lima teria se consolidado entre 2017 e 2018, quando o senador era secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia, no governo de Rui Costa. Na época, Wagner conduziu a privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), estatal que controlava a rede “Cesta do Povo”. Augusto Lima venceu a licitação e assumiu a operação de crédito consignado que originou o Cartão Cesta, posteriormente incorporado ao Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Atuação legislativa sob suspeita
A investigação também analisa possíveis conexões entre interesses do Banco Master e a atuação de Jaques Wagner como líder do governo. A PF destaca que o senador atuou em propostas para ampliar o crédito consignado, pauta ligada aos negócios de Augusto Lima. Além disso, os investigadores buscam esclarecer uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Mensagens e registros de telefonemas indicam contatos entre executivos do Master, assessores do senador e o próprio Wagner em datas próximas à apresentação da proposta.
Defesa do senador
Em nota, a assessoria de Jaques Wagner afirmou que ele “não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados”. O senador nega ter atuado em favor do Banco Master ou de qualquer outra instituição financeira. Sobre o apartamento, a nota diz que o imóvel “jamais integrou o patrimônio do parlamentar”. O dinheiro apreendido, segundo o senador, seria proveniente de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais.
“O senador Jaques Wagner (PT-BA) esclarece que não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados. O parlamentar acompanha com tranquilidade o andamento das investigações e mantém a confiança na condução delas.”
Contexto da Operação Compliance Zero
A Operação Compliance Zero combate a emissão de títulos de crédito falsos por instituições do Sistema Financeiro Nacional (SFN). Os crimes investigados incluem gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa. Na primeira fase, a PF cumpriu cinco mandados de prisão preventiva, dois temporários e 25 de busca e apreensão, além de medidas cautelares em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal. As apreensões somam cerca de R$ 230,13 milhões. As investigações que levaram à prisão de Daniel Vorcaro começaram em 2024, a pedido do Ministério Público Federal (MPF).
Repercussão política e pressão no PT
Após a operação, Jaques Wagner tem sido pressionado por aliados e lideranças do PT a deixar a liderança do governo no Senado, com receio de que o caso prejudique a imagem do partido. No entanto, o senador recebeu uma ligação do presidente Lula, o que lhe deu uma sobrevida. O partido divide-se entre os que defendem Wagner, por considerá-lo uma liderança expressiva, e os que defendem seu afastamento espontâneo, priorizando a campanha de reeleição de Lula.