A Polícia Federal deflagrou na última quinta-feira (18) uma nova fase da Operação Compliance Zero, que apura fraudes financeiras no Banco Master. Desta vez, a investigação atingiu o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado. Segundo a PF, o parlamentar teria recebido um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,4 milhões como propina do empresário Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master.

A operação ocorre após semanas de desgaste político causado pelo caso “Dark Horse” e pela própria Compliance Zero contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência. Em maio, foi revelado que Flávio teria recebido R$ 134 milhões de Daniel Vorcaro para produzir um filme sobre a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. As investigações também haviam respingado no senador Ciro Nogueira (PP-PI), que antes comentara a possibilidade de formar chapa com Flávio.

Interpretações sobre a gravidade dos casos

Para o doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília Leonardo Barreto, as investigações sobre Jaques Wagner são mais graves por sua proximidade com o presidente Lula. “Você tem elementos de caracterização de propina, tem toda uma história de isso ter chegado da Bahia e de você estar ali perto do núcleo duro do governo”, afirmou. “O Jaques Wagner é uma ponte direta, se não a principal ponte, entre o governo e o Congresso. Então, por esse lado, é mais grave.”

Já o cientista político Eduardo Grin pondera que os impactos são diferentes. “Flávio Bolsonaro é [pré-]candidato. Ele está diretamente implicado, tratou com Daniel Vorcaro pessoalmente. Esse não é o caso do Lula”, disse, lembrando que o presidente recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto. Para Grin, o choque eleitoral existe para ambos, mas a intensidade varia.

Reações e próximos passos

Conforme apurou a CNN, aliados de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro veem nas investigações contra Wagner uma chance de equilibrar o jogo. A estratégia, ainda não definida, seria explorar o desgaste no campo adversário, especialmente o elo pessoal entre Lula e o senador baiano.

No Planalto, a pressão para que Jaques Wagner deixe a liderança no Senado aumenta. Aliados e lideranças do PT temem que ele arraste o governo para a crise e prejudique a articulação política. O professor Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, explicou que a situação pode ser contida: “Numa situação como essa, existe a possibilidade de a crise parar no Jaques Wagner, pelo menos por enquanto. Então, o presidente Lula pode retirar o Jaques Wagner da liderança no Senado, ou o próprio Jaques Wagner pode pedir afastamento para responder às acusações.”

“Se o Lula não afastar o Jaques Wagner e se ele não quiser se afastar, aí o Lula vai apanhar indiretamente, dada a proximidade entre eles e a importância que Jaques Wagner tem como líder do governo. É difícil o escândalo descolar do presidente.” — Eduardo Grin

Leonardo Barreto lembrou o histórico do PT em crises similares: “O que eu acho que o Jaques Wagner não lembrou e não percebeu, talvez, é que, em todas as situações parecidas com essa, o entorno do Lula dançou. Você pega José Dirceu, pega Genoino, pega João Paulo Cunha, uma turma que se sacrificou em nome do chefe e foi degradada da vida política.”

Do lado da oposição, Barreto avalia que a campanha de Flávio Bolsonaro não deve revidar diretamente. “Hoje, [Flávio] precisa mais se preocupar em virar a própria página e deixar a imprensa, deixar o processo de investigação fazer todo o desgaste. Porque lembrar do Daniel Vorcaro também é lembrar do próprio problema.”