A Polícia Federal está implantando três novas delegacias em municípios do interior do Amazonas e do Pará, em meio ao avanço do crime organizado na região amazônica. O objetivo é impedir o crescimento de facções e combater delitos ambientais, conforme informações da corporação.
As localidades escolhidas são Tefé (AM), Humaitá (AM) e Itaituba (PA). De acordo com apurações da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e especialistas em segurança pública, o principal grupo criminoso na região é o Comando Vermelho (CV), que mantém negócios com narcotraficantes da Colômbia.
Tefé: rota do tráfico e garimpo ilegal
O delegado Renato Madsen Arruda, coordenador-geral de Proteção da Amazônia, Meio Ambiente e do Patrimônio Histórico e Cultural da PF, afirmou que a unidade em Tefé — distante cerca de 520 km de Manaus por via aérea — deve ter mais trabalho no combate ao crime organizado, especialmente na repressão ao tráfico de drogas. O município fica às margens do rio Solimões, uma das principais rotas do comércio ilegal de entorpecentes.
Relatório da Abin e da Direção Nacional de Inteligência da Colômbia (DNI), divulgado no fim de 2023, aponta Tefé como local estratégico para a mineração ilegal de ouro. Segundo o documento, a cidade e o município vizinho de Coari são usados como centros logísticos de abastecimento, principalmente para transporte de combustíveis, e servem como entrepostos para envio de insumos a garimpos ilícitos. Parte do ouro extraído na fronteira com a Colômbia é comercializada em Tefé sem registro formal.
Itaituba: 'cidade pepita' e rota de esquentamento de ouro
Em Itaituba, a cerca de 1.300 km de Belém, a Abin e a DNI relatam que outra parcela da produção de ouro é encaminhada para centros de “esquentamento”, onde o metal ilegal é inserido na cadeia formal por meio de notas fiscais irregulares ou fraudadas. Há indícios de que o município seja ponto de partida para transporte aéreo a outros estados e países, utilizando pistas de pouso legais, clandestinas ou aeródromos não autorizados.
Conhecida como “cidade pepita”, Itaituba é um dos principais centros de extração e comércio de ouro do Brasil, segundo o delegado Arruda. A cidade é cortada pela BR-163 (Cuiabá-Santarém) e pela Transamazônica (BR-230).
Humaitá: arco estratégico
Humaitá, próxima ao ponto final da Transamazônica, na cidade vizinha de Lábrea, e cruzada pela BR-319 (que liga Manaus a Porto Velho), foi descrita por Arruda como “um arco de grande relevância e interesse estratégico”, com muitas unidades de conservação, terras indígenas, áreas protegidas federais e o rio Madeira, onde há intensa extração de ouro.
Importância além da repressão
Para Melina Risso, diretora de Pesquisa do Instituto Igarapé, ONG especializada em segurança pública, a instalação das novas unidades da PF na Amazônia vai além das ações de repressão. “A operação policial, para situação de crise e de emergência, é importante para interromper o fato, mas ela não desestrutura a organização criminosa”, afirmou. Segundo ela, as delegacias reforçam a capacidade de esclarecimento dos crimes em todas as suas dimensões, com inquéritos que possam levar a condenações, já que são delitos complexos.
Risso destacou que a elucidação dessa complexidade é essencial para a aplicação de penalidades proporcionais à gravidade dos crimes. “Se a gente olhar só a pena do crime ambiental, ela é muito pequena. O conjunto de crimes associados para fazer com que a estrutura gere lucro é fundamental no crime ambiental. E é na composição das penas desses diferentes crimes que você consegue gerar uma condenação com um tamanho de pena grande”, explicou. Como exemplos, citou a falsificação de documentos e o suborno de fiscais na extração ilegal de madeira.
Convergência criminal
O delegado Arruda mencionou o fenômeno da convergência criminal na Amazônia, pelo qual duas criminalidades aparentemente sem correlação se aproximam por benefícios de lucratividade. Ele citou o uso de aviões por traficantes de drogas e garimpeiros ilegais na floresta. “Percebemos ali um compartilhamento de meios logísticos para crimes distintos”, afirmou.
A PF já está adquirindo equipamentos e veículos para as novas unidades. O quadro de pessoal será preenchido com integrantes das turmas que se formarão nos próximos meses na academia da instituição, de acordo com o delegado.
Com informações de Folha — Cotidiano.