O ornitólogo Tony Silva teve três telefones celulares e um computador apreendidos pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, no dia 1º de maio. A ação é parte de uma investigação sobre tráfico internacional de micos-leões-dourados e outras espécies ameaçadas da fauna brasileira, conforme nota da PF.

Embora o comunicado oficial não mencione o nome do alvo, uma fonte próxima às investigações, que pediu anonimato, identificou o homem como Tony Silva. Ele é suspeito de coordenar a compra ilegal de animais para o Vantara, um megazoológico privado em Gujarat, na Índia, administrado por Anant Ambani, filho do homem mais rico do país.

Vantara nega vínculo com atividades ilegais

Em e-mail enviado à Mongabay, um porta-voz do Vantara afirmou que o zoológico "não tem qualquer relação com a compra de animais ilegais" e classificou como "factualmente incorreta e juridicamente insustentável" qualquer tentativa de associar os assuntos pessoais de Silva à instituição. Segundo a organização, Silva não é funcionário, mas foi contratado por uma empresa independente para consultoria pontual sobre gestão de recintos, cuidados com animais e nutrição.

Apesar da negativa, a Conferência Internacional de Indústrias de Avicultura na Tailândia, em 2025, descreveu Silva como "líder de conservação" do Vantara. Um especialista brasileiro, Beto Polezel, também associou Silva ao zoológico em uma postagem no Instagram. Em março de 2026, o próprio ornitólogo compartilhou informações sobre uma conferência a ser realizada no complexo indiano.

Espécies ameaçadas no centro das investigações

De acordo com a fonte, os principais alvos no Brasil são o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) e a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), ambas ameaçadas de extinção. Essas espécies estiveram no centro de dois casos recentes de tráfico: em 2023, sete micos e 29 araras foram resgatados no Suriname e repatriados; em fevereiro de 2024, autoridades do Togo encontraram 20 micos e 12 araras em um veleiro na costa africana. Não está claro se Silva teve envolvimento nesses episódios.

A fonte também afirma que Silva supostamente facilitou o envio do cuxiú-preto (Chiropotes satanas), primata ameaçado endêmico da Amazônia brasileira, para o Vantara.

Histórico de condenação por tráfico

Nascido em Cuba e cidadão norte-americano, Tony Silva é uma autoridade em aves exóticas. Trabalhou no Loro Parque, em Tenerife, e em organizações de proteção a papagaios. Em 1996, porém, foi condenado a quase sete anos de prisão e multa de 100 mil dólares pela Operação Renegade, que investigou o contrabando de mais de 185 araras-azuis e outras aves raras da América do Sul entre 1985 e 1994.

Silva estava no Brasil para participar da Avicon, maior congresso de criação de aves da América Latina, realizado em Itatiba (SP) nos dias 25 e 26 de abril. Antes da apreensão, viajou pelo interior da Bahia, onde gravou vídeos em áreas de ocorrência da arara-azul-de-lear. A organização do evento confirmou a retenção do equipamento no aeroporto. A Mongabay tentou contato com Silva, mas não obteve resposta.

O megazoológico Vantara

Com 1.400 hectares, o equivalente a nove parques do Ibirapuera, o Vantara é gerido pelo braço filantrópico da Reliance Industries, conglomerado liderado pela família Ambani. Inaugurado em março de 2025, o complexo abriga mais de 150 mil animais de 2 mil espécies, incluindo ao menos 40 mil importados, como guepardos, chimpanzés e orangotangos.

O local foi palco da recepção de pré-casamento de Anant Ambani em 2024, com convidados como Bill Gates e Mark Zuckerberg. Em setembro de 2025, uma investigação da Suprema Corte indiana não encontrou irregularidades nas aquisições de animais. Contudo, o Secretariado da Cites solicitou que a Índia não emitisse mais licenças de importação para espécies ameaçadas, após encontrar discrepâncias entre dados de exportação e importação. A recomendação foi revertida em novembro de 2025, com votos decisivos de Brasil, Japão e Estados Unidos.

Reportagens anteriores revelaram que 5.359 animais saíram da Venezuela para o Vantara em 2024, incluindo um mico-leão-dourado. O zoológico também recebeu 23 ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii) da Alemanha em 2023, sem consentimento do governo brasileiro, segundo a Reuters. O Vantara afirmou que a transferência foi "totalmente legal" e parte de um acordo de reprodução para conservação.

A investigação da Polícia Federal segue em andamento. O equipamento apreendido será submetido a perícia para extração de dados e análise da cadeia criminosa transnacional.

Com informações de Mongabay Brasil.