A Polícia Federal enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um relatório no qual afirma que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) obteve um “benefício econômico direto” de pelo menos R$ 468.721,78 em viagens e jantares pagos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O documento, encaminhado ao ministro André Mendonça em 20 de março, embasa a investigação sobre fraudes envolvendo Vorcaro e o Banco Master. Em maio, o senador foi alvo de busca e apreensão.

A informação foi divulgada nesta terça-feira (16) pelo ministro André Mendonça, dias após o ministro Gilmar Mendes pautar o julgamento sobre a prisão de Henrique e Felipe Vorcaro, pai e primo de Daniel, respectivamente. Gilmar havia pedido vista do caso; Mendonça mantinha a apuração sob sigilo.

Detalhamento das despesas

Com base em mensagens, invoices e registros de conversão cambial, a PF listou os seguintes gastos:

  • Paris (13 de abril de 2024): jantar no restaurante GIGI, desembolso de US$ 1.981,12 (R$ 10.175,82).
  • Nova York (12 a 18 de maio de 2024): seis diárias no Hotel Park Hyatt New York, no valor total de US$ 47.779,80 (R$ 245.153,37), com diária unitária de US$ 4.791,24 (R$ 24.583,37).
  • Lisboa (junho de 2024): cinco diárias em suíte júnior no Hotel Four Seasons, totalizando R$ 91.280,59 (cerca de R$ 18.256,12 por dia).
  • Courchevel, nos Alpes franceses (21 e 22 de janeiro de 2025): despesas em dois restaurantes, La Soucoupe (R$ 63.600,00) e Le Tremplin (R$ 58.512,00), somando R$ 122.112,00.

Os investigadores ressaltaram que o total não inclui gastos com voos privados, identificados em ao menos três deslocamentos internacionais de entrada e saída do Brasil e dois voos internos nos Estados Unidos.

Relação instrumental

A PF descreve a relação entre Vorcaro e Ciro Nogueira como “pessoal estreita, contínua e marcada por elevado grau de intimidade”, mas que transcende a amizade. “Tal vínculo de amizade revela-se, na verdade, uma relação funcional e instrumental, estruturada a partir da convergência de interesses ilícitos e orientada pelo benefício mútuo”, sustentam os investigadores.

O relatório aponta ainda registros em listas de pagamentos e diálogos que mencionam um destinatário identificado como “Ciro, em valores vultosos”. Embora a PF reconheça a necessidade de cautela devido à existência de homônimos, afirma que os registros “reforçam o cenário de circulação financeira associada ao investigado”.

Os investigadores concluem que há “indícios robustos, convergentes e reiterados da concessão de vantagens patrimoniais e financeiras indevidas em favor do senador Ciro Nogueira, concedidas direta ou indiretamente por Daniel Bueno Vorcaro e por pessoas e empresas a ele vinculadas, configurando um padrão contínuo de benefícios incompatível com relações pessoais ou negociais regulares”.

Reação e próximos passos

A CNN Brasil procurou Ciro Nogueira para comentar o relatório, mas não obteve resposta até o momento. O espaço segue aberto para manifestação. O caso tramita no STF sob relatoria do ministro André Mendonça.