A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (18) a 9ª fase da Operação Compliance Zero, com autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação apura um esquema de fraudes e corrupção envolvendo o Banco Master e aponta que o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, teria recebido vantagens indevidas, como um apartamento de luxo em Salvador e R$ 3,5 milhões, em troca de atuação política no Congresso Nacional.

Segundo a decisão judicial, as suspeitas são baseadas em mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro Augusto Lima, dono do Banco Pleno e apontado como aliado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A TV Globo procurou a assessoria de Jaques Wagner, mas não obteve resposta até a última atualização.

Relação com Augusto Lima e supostos benefícios

A PF investiga a proximidade entre Jaques Wagner e Augusto Lima. De acordo com os autos, o senador teria atuado em favor de projetos de interesse do grupo financeiro, como a chamada "Emenda Master" e uma proposta para ampliar o limite do crédito consignado, setor em que o grupo atua por meio do Credcesta — um cartão de benefício consignado para servidores públicos, aposentados e pensionistas. Registros financeiros do Master indicam que, em 2024, a venda das operações de crédito consignado ao Credcesta gerou mais receita ao banco do que os juros cobrados dos servidores.

Em contrapartida, os investigadores suspeitam que Wagner tenha recebido:

  • Um apartamento de luxo em Salvador, adquirido pela empresa Epítome S.A. com recursos de fundos vinculados ao Master. O imóvel, em construção, tem previsão de entrega para setembro de 2026 e fica em um empreendimento voltado ao público de alta renda.
  • R$ 3,5 milhões, transferidos da empresa PKL One Participações S.A., dirigida por Andréa Lima Novaes (prima de Augusto Lima), para a BN Financeira Ltda., empresa ligada à família de Jaques Wagner. A BN Financeira foi constituída como microempresa, mas recebeu valores expressivos, segundo a PF.

A decisão de Mendonça detalha que o montante não foi repassado diretamente ao senador. Mensagens no celular de Augusto Lima mostram o enteado de Wagner, Eduardo Mendonça Sodré Martins, cobrando valores: “Amanhã vence [sic] os boletos e são altos”. Lima respondeu que o cenário estava “crítico” e relacionou a dificuldade à operação entre o Banco Master e o BRB.

Atuação parlamentar investigada

A PF investiga se Wagner atuou em três frentes legislativas:

  • Emenda Master: Emenda nº 11 à PEC 65/2023, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), que propunha alterações no Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Segundo a PF, o texto foi elaborado pela assessoria do Banco Master e entregue na residência de Ciro Nogueira. Wagner teria atuado pela aprovação da proposta.
  • Ampliação do crédito consignado: Proposta que beneficiaria o Credcesta, braço do grupo Master.
  • Outros temas de interesse do banco: A PF cita que Wagner teria tratado com Augusto Lima sobre assuntos estratégicos para a instituição.

Os investigadores apontam que Augusto Lima atuou como "canal de interlocução" com o senador, utilizando chamadas de voz, mensagens temporárias e comunicações de baixa rastreabilidade, o que, em juízo preliminar, reforça o risco de ocultação de provas.

Contexto da Operação Compliance Zero

A operação investiga um suposto esquema de fraudes financeiras no Banco Master. A primeira fase foi em novembro de 2025, com a prisão de Daniel Vorcaro, presidente do banco, por suspeita de emissão de títulos sem garantias. O prejuízo potencial estimado é de R$ 12 bilhões. Fases posteriores incluíram suspeitas de lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio, espionagem e corrupção. A investigação também apura aportes do Banco de Brasília (BRB) no Master e repasses a agentes políticos.

Entre os alvos estão o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), no âmbito de investimentos do Rioprevidência. Todos negam irregularidades. Nesta quinta, foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão, inclusive em um endereço de Jaques Wagner em Salvador, no Corredor da Vitória.

Defesa de Augusto Lima

A defesa de Augusto Lima enviou nota afirmando que as diligências eram desnecessárias, pois ele está há seis meses à disposição das autoridades. A nota diz: "Augusto Lima sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública."