Investigações da Polícia Federal (PF) revelaram que Henrique Moura Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, teria contado com apoio de integrantes da corporação para acessar informações sigilosas. A constatação consta em representação enviada ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a sexta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em maio. O sigilo do detalhamento foi levantado na terça-feira (16). Na mesma decisão, Mendonça permitiu acesso a dados sobre a relação do banqueiro com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), envolvendo pagamento de mesadas e custeio de viagens internacionais em troca de favores políticos.

Documento sigiloso apreendido

Durante a operação contra Henrique Moura Vorcaro, preso por supostamente coordenar um grupo que coagia e ameaçava desafetos do banqueiro, a PF encontrou um documento extraído do sistema interno Sinapse, banco de dados de inteligência de uso restrito da autoridade. Tratava-se de uma impressão de captura de tela da plataforma. O documento continha consulta detalhada aos dados pessoais de Augusto Conte, ex-sócio de Daniel Vorcaro. Para os investigadores, a presença do material em poder de um civil é forte indício de acesso indevido a sistemas internos da corporação.

Indícios de rede de informantes

A PF sustenta que a apreensão reforça a suspeita de que Henrique Moura Vorcaro “dispunha, em seu favor, no âmbito da Polícia Federal, de servidor(es) disposto(s) a acessar, de maneira ilícita, os sistemas internos da corporação para atender a seus interesses pessoais”. Segundo ofício encaminhado ao STF, esses agentes atuariam como “braços” do grupo investigado dentro da PF. A corporação afirma que pesquisas eram realizadas sobre pessoas consideradas estratégicas para os investigados, utilizando informações protegidas por sigilo.

Envolvimento de policiais

À época da deflagração da operação, a PF afirmou que Daniel Vorcaro contava com a participação de três policiais federais aposentados – Marilson Roseno, Sebastião Moreira Júnior e Francisco José Pereira da Silva – e o agente da ativa Anderson Wander da Silva Lima, lotado na Superintendência Regional da PF no Rio de Janeiro. A apuração aponta que Lima recebia propina de Marilson Roseno para acessar sistemas sigilosos pelo menos desde agosto de 2023, sendo procurado constantemente pelo policial aposentado aliado de Vorcaro.

“Anderson Wander da Silva Lima teria desempenhado papel de agente infiltrado funcionalmente na Polícia Federal em benefício da organização criminosa. [...] Trata-se, portanto, de atuação que, em juízo de delibação, revela abuso continuado da função pública, violação de sigilo funcional e inserção orgânica no núcleo policial-informacional da ‘Turma’”, concluiu Mendonça no relatório.

Análise do material

A análise preliminar do material apreendido indica que o suposto acesso clandestino a dados sigilosos serviria de suporte às atividades do grupo investigado. De acordo com a PF, essa organização seria liderada pela família Vorcaro em conjunto com um operador. A defesa de Daniel Vorcaro foi procurada pela reportagem, mas ainda não se manifestou.