A Polícia Federal divulgou, em relatório obtido na terça-feira (16/6), que pessoas a serviço de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, adotavam medidas como conversas em pilotis de edifícios, reuniões dentro de veículos de luxo e uso de números telefônicos do exterior para dificultar o monitoramento investigativo. Segundo a PF, essas práticas faziam parte da rotina de um grupo que incluía Vorcaro, Felipe Mourão, conhecido como “Sicário” e apontado como responsável por transmitir ordens de intimidação, além de integrantes de dois núcleos denominados “A Turma” e “Os Meninos”.

Estrutura do grupo investigado

O relatório indica que Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado, liderava “A Turma”, composta majoritariamente por policiais, utilizando sua experiência e contatos para coordenar atos de coação e obter dados sigilosos. Também são citados outros agentes aposentados, como Sebastião Monteiro Júnior. Já o braço tecnológico ficava sob responsabilidade de David Henrique Alves, apontado como líder do núcleo de hackers, responsável por invasões cibernéticas e derrubada de perfis de adversários. Esse núcleo é atribuído pela PF ao grupo chamado “Os Meninos”.

Encontros em pilotis e carros de luxo

Em 1º de março de 2026, Sebastião Monteiro enviou mensagem a Marilson Roseno informando que ônibus de excursão para um jogo do Atlético saíam da frente de sua casa e sugeriu: “Não é melhor deixar o carro aqui e ir de ônibus?”. Marilson recusou o convite: “Não, pô, mas não vou no jogo não, você é doido? Eu ia levar minha menina lá, mas não vou não”. Em seguida, Marilson chamou Sebastião para ir ao prédio onde morava, na Avenida Assis Chateaubriand, bairro Floresta, região Leste de Belo Horizonte, para conversar sobre “uma ideia” antes da partida. Ele orientou que Sebastião avisasse ao chegar para que descesse ao encontro e escreveu que “a gente conversa lá [embaixo], porque aqui tô com uma turma que pode atrapalhar”. Imagens de câmeras de segurança citadas pela investigação mostram que, às 17h06, Marilson deixou um grupo de amigos na área de lazer do edifício para encontrar Sebastião na portaria. Os dois seguiram para o pilotis do prédio e ficaram sozinhos por cerca de 1 hora e 10 minutos.

No dia seguinte, 2 de março, uma equipe policial identificou uma Range Rover preta estacionada em frente ao prédio de Marilson. De acordo com a PF, Marilson e Felipe Mourão permaneceram reunidos dentro do veículo por aproximadamente 1 hora e 20 minutos. A investigação também menciona que a Polícia Rodoviária Federal abordou outra Range Rover de Mourão na BR-381, com David Henrique e Katherine Venâncio no veículo, transportando diversos computadores e notebooks.

Uso de números internacionais

A PF aponta ainda o emprego de números internacionais para dificultar interceptações. Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, passou a se comunicar por meio de um terminal registrado na Colômbia; Sebastião Monteiro usava um número dos Estados Unidos para manter contato com Marilson; e o próprio Marilson recorria a um número internacional no WhatsApp Business para falar com outros integrantes, segundo o relatório.

Eliminação de provas digitais

O relatório afirma que a eliminação de provas digitais fazia parte da rotina do grupo e recebia incentivo direto da liderança. Em uma conversa analisada, Daniel Vorcaro enviou um áudio sigiloso a Felipe Mourão e orientou: “Vou mandar o áudio da conversa. Mas preciso que você apague e não mande pra ninguém”. Felipe respondeu: “Manda e apaga. vou só ouvir”. A PF também identificou que Marilson apagou conversas anteriores com Henrique Vorcaro, manteve no aparelho apenas mensagens a partir de fevereiro de 2026, usava mensagens temporárias e evitava chamadas telefônicas convencionais, priorizando ligações por aplicativos.