A Polícia Federal enviou ao Supremo Tribunal Federal um documento no qual afirma que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, concedeu tratamento "privilegiado" e "diferenciado" ao senador Ciro Nogueira (PP-PI). Segundo os investigadores, Vorcaro custeou despesas de viagem do parlamentar que ultrapassam R$ 500 mil, mesmo em um cálculo conservador.
A relação entre os dois foi classificada como "funcional e instrumental", voltada ao benefício mútuo. Enquanto Ciro Nogueira atuava no Senado para favorecer interesses do banco, Vorcaro retribuía com vantagens financeiras, conforme a representação da PF que embasou decisões do ministro André Mendonça no inquérito.
Viagens e despesas de alto padrão
As investigações apontam que, entre 2024 e 2025, Vorcaro bancou de forma sistemática viagens internacionais de Ciro Nogueira, utilizando aeronaves particulares e serviços de luxo. O pacote incluía reservas em hotéis de prestígio, como o Park Hyatt New York, refeições em restaurantes sofisticados e até a compra de vestuário para esqui.
O senador visitou ao menos quatro destinos: Paris (França), Nova Iorque (EUA), Portugal e Courchevel (França), estação de esqui nos Alpes. Em três ocasiões, Ciro Nogueira voou em jatos particulares de propriedade de Vorcaro. O ex-banqueiro também custeou transporte local, chalés e atendeu a pedidos detalhados de roupas de esqui para o senador e sua acompanhante.
A PF ressalta que o valor total das despesas ainda está em apuração, mas afirma:
"O montante efetivamente pago por DANIEL VORCARO ao Senador CIRO NOGUEIRA em despesas de viagens internacionais... supera, com facilidade, a quantia de R$ 500.000,00, num cálculo extremamente conservador, ressaltando, mais uma vez, que citados pagamentos guardam relação direta com a atuação parlamentar de CIRO NOGUEIRA em prol dos interesses financeiros de DANIEL VORCARO."
Atuação parlamentar em troca de benefícios
De acordo com a PF, Ciro Nogueira utilizou seu mandato para beneficiar o Banco Master. O principal exemplo é a apresentação da Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023, apelidada de "emenda Master". O texto propunha alterações no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que protege correntistas em caso de quebra de instituições financeiras.
Os investigadores afirmam que a emenda foi redigida pela assessoria do próprio banco e entregue diretamente ao senador, com orientações para entrega do envelope em seu endereço residencial. A proposição, segundo a PF, "detinha aptidão concreta para ampliar significativamente os negócios da instituição financeira vinculada ao grupo investigado, ao passo que transferia risco relevante ao Fundo Garantidor de Créditos".
Esquema de lavagem de dinheiro
O inquérito no STF aponta que o suposto esquema envolvia terceiros e empresas interpostas para ocultar a origem e o destino dos recursos, dificultando o rastreamento financeiro e indicando possível lavagem de dinheiro. A PF destaca:
- "Estruturas recorrentes e interligadas, utilizadas... para a ocultação, dissimulação e reinserção de recursos de origem incompatível com a capacidade econômico-financeira formal dos envolvidos";
- "Empresas do núcleo familiar, circulação intragrupo, uso intensivo de numerário em espécie e interposição de terceiros, inclusive agentes públicos".
Daniel Vorcaro, que está preso em Brasília por fraudes financeiras, tenta firmar um acordo de delação premiada, mas propostas anteriores foram rejeitadas pela PF e pelo Ministério Público.
Transporte de R$ 350 mil em espécie
A PF investiga ainda o envio, em um avião, de R$ 350 mil em espécie supostamente destinados a Ciro Nogueira. O transporte teria ocorrido em agosto de 2024, segundo relato do piloto Mauro Mattosinho. Ele afirmou que ouviu de Roberto Leme, passageiro do voo, o nome "Ciro". Leme, conhecido como "Beto Louco", é apontado como líder de um esquema de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal no setor de combustíveis, com conexões com o PCC. A PF, contudo, ressalta que esses indícios ainda precisam de aprofundamento investigativo.
Defesa de Ciro Nogueira
Em maio, quando Ciro Nogueira foi alvo de operação da PF, sua defesa afirmou que o senador está "comprometido em contribuir com a Justiça, a fim de esclarecer que não teve qualquer participação em atividades ilícitas" e repudia "qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar". A TV Globo procurou Ciro Nogueira para comentar o novo relatório, mas não obteve retorno até a publicação.