O senador Ciro Nogueira recebeu ao menos R$ 6 milhões em pagamentos mensais do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, entre 2024 e 2025, conforme aponta a Polícia Federal (PF). A informação consta em documentos do julgamento de uma fraude bilionária ao sistema financeiro, atualmente em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo a PF, "os diálogos analisados demonstram ciência, anuência e prioridade atribuída por Vorcaro à manutenção desses repasses, os quais, no intervalo temporal identificado, totalizam montante mínimo estimado em R$ 6 milhões". O valor inicial era de R$ 300 mil por mês, tendo subido posteriormente para R$ 500 mil.

Mensagens entre Vorcaro e operadores

A existência da mesada foi identificada a partir de trocas de mensagens entre Daniel Vorcaro e seu primo, Felipe, que atuava como operador do esquema. Em 2024, Felipe perguntou se deveria continuar com a "parceria BRGD/CNLF" e mencionou o valor de R$ 300 mil mensais, ao que Vorcaro concordou. BRGD é uma empresa controlada pela família Vorcaro, enquanto CNFL é uma empreiteira da família do senador.

No início de 2025, Felipe voltou a indagar se deveria "continuar enviando o recurso pro parceiro BRGD". Vorcaro não apenas confirmou, como ressaltou que era "muito importante". Em junho do mesmo ano, o ex-banqueiro demonstrou irritação com o primo: "Cara, eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?", escreveu. Na ocasião, Felipe disse que tentaria resolver e perguntou se "vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?", indicando a possibilidade de aumento no valor.

Esquema de lavagem de dinheiro

De acordo com o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, "Daniel Vorcaro realizou repasses mensais à empresa do Senador, totalizando no mínimo R$ 6 milhões". A PF aponta que as transferências foram feitas por meio de empresas do núcleo familiar de Ciro Nogueira, como a CN Motos e a CNFL, com depósitos fracionados em espécie, o que caracterizaria lavagem de dinheiro.

Os investigadores afirmam que "a leitura integrada dos diversos indexadores revelou a existência de estruturas recorrentes e interligadas, utilizadas, em tese, para a ocultação, dissimulação e reinserção de recursos de origem incompatível com a capacidade econômico-financeira formal dos envolvidos, tendo como possível beneficiário final o senador Ciro Nogueira".

Negócio com deságio na Green Investimentos

A investigação também identificou que uma empresa ligada ao senador adquiriu 30% de participação na Green Investimentos S.A. por R$ 1 milhão, quando o valor estimado da fatia era de aproximadamente R$ 12,9 milhões. A operação foi formalizada por meio de um "instrumento particular" — um contrato de gaveta — para evitar mecanismos de fiscalização.

O objetivo real, segundo a PF, era criar um canal para repassar dividendos da empresa Trinity Energias Renováveis ao senador de forma aparentemente lícita. Em apenas um ano, os dividendos dessa participação seriam de aproximadamente R$ 720 mil, quase recuperando todo o investimento inicial. A CNFL, que realizou a transação, não possui histórico de empregados e funciona no mesmo endereço de uma concessionária de motos (CN Motos), sem identificação física.

Indícios de corrupção e organização criminosa

Nas planilhas de operadores financeiros de Vorcaro, há registros como "Espécie Ciro 350K", referentes a pagamentos em dinheiro vivo. Há ainda relato de um piloto sobre o transporte de uma sacola com supostos valores em espécie em um voo privado para Brasília. Além disso, o esquema incluía o custeio de despesas de luxo (viagens, jatos e hotéis) por interpostas pessoas e empresas de turismo, mantendo o nome do senador fora das faturas.

A PF solicitou a suspensão das atividades econômicas da CNLF Empreendimentos Imobiliários, Green Investimentos S.A., Green Energia Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia e da BRGD. A investigação aponta indícios dos crimes de corrupção passiva, corrupção ativa, organização criminosa, lavagem de dinheiro e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.