A Polícia Federal (PF) concluiu que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) se beneficiou de uma estrutura financeira que envolveu familiares, servidores públicos, beneficiários de programas sociais e dinheiro em espécie para ocultar recursos ilícitos. Parte desses valores, segundo a investigação, teria origem em pagamentos mensais feitos pelo ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. A conclusão consta em análise de Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre a movimentação do grupo ligado ao senador, com atuação no Piauí e no Maranhão.

Circuito financeiro integrado

Os investigadores apontam a existência de um "circuito integrado" de movimentação financeira entre empresas das famílias Nogueira e Vorcaro, em especial a CNLF, do senador, e a BRGD, controlada por Vorcaro e seus parentes. Por esse fluxo, o ex-banqueiro teria pago uma mesada ao parlamentar que soma ao menos R$ 6 milhões entre 2024 e 2025, período que coincide com o agravamento dos problemas do Master e as tentativas de salvar o negócio de Vorcaro.

“Tais estruturas não se apresentam de forma isolada, mas operam de modo articulado, por meio de empresas do núcleo familiar, circulação intragrupo, uso intensivo de numerário [dinheiro] em espécie e interposição de terceiros, inclusive agentes públicos”, conclui a PF.

Os investigadores afirmam que a estratégia configura lavagem de dinheiro, com "estruturas recorrentes e interligadas, utilizadas, em tese, para a ocultação, dissimulação e reinserção de recursos de origem incompatível com a capacidade econômico-financeira formal dos envolvidos, tendo como possível beneficiário final o senador Ciro Nogueira".

Relação próxima entre senador e banqueiro

As investigações já identificaram diversos indícios da relação próxima entre Ciro e Vorcaro. Foram registrados pagamentos de diárias em hotéis de luxo em Nova York e na Europa, viagens juntos e repasses em dinheiro vivo. O banqueiro se referia ao parlamentar como "grande amigo de vida". A Folha procurou Ciro Nogueira e a defesa de Vorcaro, mas não obteve resposta até a publicação.

Papel da fintech PJBank

Segundo a PF, os recursos eram repassados ao clã Nogueira por meio da BRGD, administrada por Felipe Vorcaro (primo de Daniel), por intermédio da fintech PJBank. Os investigadores apontam que, entre 2020 e 2025, a fintech enviou R$ 3 milhões ao grupo do senador, mesmo sem ter autorização do Banco Central para esse tipo de transação. Procurada, a PJBank afirmou que "opera em plena conformidade com a regulação do Banco Central" e que, em dezembro de 2023, ao identificar a empresa do senador, a descredenciou de sua carteira por sua política interna não atuar com figuras públicas. A empresa também disse que "em nenhum momento a PJBank foi origem, destinatária ou beneficiária dos valores descritos".

Empresas da família Nogueira

A partir daí, entravam em ação duas empresas da família Nogueira: a CNLF e a CN Motos, que atua na venda de motocicletas. A primeira tem como sócios o senador e mais quatro familiares; a segunda, ele e mais dois. Segundo a PF, essas empresas serviam para receber os montantes ilícitos, misturá-los aos recursos legítimos e redistribuí-los dentro do clã. A PF destaca que os dados do Coaf apontam um volume de mais de R$ 13 milhões em movimentações suspeitas envolvendo a teia investigada.

Uso de terceiros como laranjas

No caso da CN Motos, a polícia chama atenção para o funcionário Bernardo, que realizou R$ 3,5 milhões em depósitos em espécie para a empresa, em períodos coincidentes com transferências subsequentes da empresa para a pessoa física do senador. A empresa também recebeu ao menos R$ 1,2 milhão de servidores públicos que atuam no Piauí, no Maranhão e em estruturas da União. Alguns desses servidores têm salário baixo e foram beneficiários de programas sociais do governo federal, o que motiva a suspeita de que poderiam ter sido usados como laranjas.

  • Um deles recebia R$ 2.000 mensais, mas transferiu R$ 90 mil para a CN Motos em um ano.
  • Outro, que recebeu auxílio emergencial durante a pandemia de Covid-19, pagou R$ 143 mil para a empresa no mesmo período.

No fluxo contrário, a CN Motos repassou R$ 412 mil a uma pequena empresa em Teresina, com capital social de apenas R$ 20 mil, cuja única sócia é uma funcionária da assembleia legislativa do estado com salário atual de cerca de R$ 4.000. A PF considera que esse padrão indica possível utilização de terceiros como instrumento de ocultação do real beneficiário.

Transação com deputado federal

Também houve transações entre parlamentares. O deputado federal Jadyel Alencar (Republicanos-PI) pagou R$ 357 mil à CN Motos. Procurado, ele afirmou que o montante se refere a parte da compra de um avião.