A investigação da Polícia Federal aponta que conversas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel indicam o pagamento de R$ 350 mil em espécie ao senador Ciro Nogueira (PP-PI). Segundo a PF, a entrega do dinheiro ocorreu por meio de uma aeronave utilizada por Vorcaro dias antes. O piloto teria informado que transportou uma sacola com dinheiro e que entre os passageiros estava "Roberto Leme", possivelmente o empresário conhecido como "Beto Louco", suspeito de liderar um esquema bilionário de lavagem de dinheiro na Operação Carbono Oculto. O piloto ainda ouviu o passageiro mencionar o nome de Ciro Nogueira, dizendo que tudo estava certo e que o senador já esperava. Os fatos ocorreram em agosto de 2024 e, para a PF, indicam fortemente os crimes de corrupção passiva e ativa.

As informações foram tornadas públicas nesta terça-feira (16) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), pouco após o ministro Gilmar Mendes marcar o julgamento sobre a prisão de Henrique e Felipe Vorcaro, pai e primo de Daniel, respectivamente.

Em uma das mensagens, Vorcaro diz ao cunhado "resolve ciro" e pede para "mandar lá agora". Zettel encaminha pagamentos pendentes com a inscrição "Espécie Ciro 350k". O ex-banqueiro afirma que o dinheiro está "indo" e reforça a ordem para pagamento em espécie. No mesmo dia, o avião usado por Daniel Vorcaro fez o trajeto São Paulo–Brasília, com escala no Rio de Janeiro. A PF também encontrou mensagens que demonstram o uso da mesma aeronave para viagens de interesse do banqueiro.

Envolvimento de ex-servidor da PF

Segundo a investigação, Daniel Vorcaro contava com a ajuda de Marilson Roseno da Silva, então escrivão da Polícia Federal, para monitorar investigações contra sua atuação à frente do Banco Master desde agosto de 2021. Silva utilizava o sistema interno da PF para realizar buscas relacionadas a Vorcaro e seus aliados, com o objetivo de identificar se havia alguma apuração em curso.

Posicionamento das defesas

A defesa de Henrique Vorcaro, após a Segunda Turma do STF decidir manter sua prisão, afirmou que a medida carece de "fundamento concreto". Em nota, sustentou que ele "sempre esteve à disposição das autoridades, não oferece risco à investigação e não pode ser mantido preso com base em presunções, conjecturas ou responsabilidades atribuídas a terceiros". A defesa reiterou que os fatos devem ser analisados de forma individualizada e que a falta de acesso integral aos elementos que embasam as acusações compromete o pleno exercício da ampla defesa.

Já os advogados de Felipe Cançado Vorcaro refutaram as acusações, citando documentos tornados públicos. Segundo eles, a petição apresentada pelo BTG esclarece a regularidade e licitude das operações apontadas como ilícitas. "Os documentos apresentados demonstram que tais operações foram submetidas a auditorias independentes, além de estarem amparadas por extensa documentação comprobatória", afirmam. Entre os elementos, destacam-se registros e fotografias de usinas solares construídas pelo grupo em diversas regiões do país. A defesa ressalta que os esclarecimentos do BTG foram protocolados após a decisão monocrática que converteu a prisão temporária em preventiva, e só foram considerados no julgamento do ministro Gilmar Mendes.

A reportagem também procurou a defesa de Ciro Nogueira, mas não obteve resposta até o momento. O espaço segue aberto para manifestações. As defesas de Beto Louco e de Marilson Roseno da Silva também foram procuradas.