A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira uma nova fase da operação Compliance Zero, que tem como um dos alvos o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado. De acordo com a investigação, Wagner teria recebido ao menos R$ 8,35 milhões em vantagens econômicas indevidas para atuar em favor do Banco Master. A operação foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça.
Suposto beneficiário central
Na decisão que embasou a operação, Mendonça afirmou que Wagner é “apontado pela Polícia Federal como suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas, figurando como agente público em favor de quem teriam sido estruturados pagamentos, benefícios e aquisições patrimoniais”. Durante as diligências, foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao senador. Segundo uma fonte da PF, foram apreendidos US$ 49 mil e ao menos 13 relógios em um dos locais.

Benefícios alegados
As suspeitas incluem a compra de um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões em um bairro nobre de Salvador, transferências de aproximadamente R$ 3,5 milhões para uma empresa familiar, além de outras vantagens como o uso de aeronave e o pagamento de ingressos para shows no exterior. O operador do esquema seria o empresário baiano Augusto Lima, próximo a Wagner e também alvo da operação.
Atuação em favor do Banco Master
Em troca, segundo a PF, o parlamentar teria atuado em temas de interesse do Banco Master, como a defesa do aumento do limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão – medida conhecida como “Emenda Master”, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) mas que não avançou. Wagner também teria tentado favorecer a venda do Master ao Banco de Brasília (BRB) e a elevação da margem de crédito consignado para trabalhadores celetistas, aposentados e pensionistas.
Diálogos e provas
As investigações apontam tratativas por mensagens de texto e outras comunicações diretas entre Wagner e Augusto Lima. Em um diálogo, o senador teria indicado a unidade a ser adquirida e o valor. A defesa de Lima informou que o empresário está há seis meses à disposição das autoridades e que as medidas “contribuirão para demonstrar que os fatos apurados são rigorosamente lícitos”.
Reações políticas
A operação representa um revés para a estratégia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de desgastar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário político que foi flagrado em investigações pedindo apoio milionário ao dono do Master, Daniel Vorcaro. Em sua conta no X, Flávio Bolsonaro publicou: “Escândalo envolvendo o PT é como a incompetência do governo Lula: não tem como esconder”, acrescentando “CPMI do Banco Master já!”. Já o presidente do PT, Edinho Silva, declarou que Wagner é “depositário de toda a nossa confiança” e que “os crimes cometidos precisam ser apurados”.
Contexto do investigado
Jaques Wagner é pré-candidato à reeleição ao Senado pela Bahia, um dos principais colégios eleitorais para Lula. Ex-ministro do Trabalho e da Secretaria de Relações Institucionais no primeiro governo Lula, foi governador da Bahia por dois mandatos e, sob Dilma Rousseff, ocupou os cargos de ministro da Defesa, chefe da Casa Civil e chefe do Gabinete Pessoal da Presidência, até o impeachment em 2016.
Outros alvos
O senador Ciro Nogueira, presidente do PL, também foi alvo de mandados de busca e apreensão em fase anterior da Compliance Zero, no mês passado, acusado de receber propina de ao menos R$ 300 mil por mês. O Palácio do Planalto não respondeu se Wagner permanecerá como líder do governo. A assessoria do senador não se manifestou até o momento.
Detalhes da operação
A PF cumpriu 18 mandados de busca e apreensão nos estados da Bahia, São Paulo e no Distrito Federal. A nova fase da Compliance Zero investiga a eventual participação de agente público em irregularidades envolvendo instituições do sistema financeiro nacional.