Em uma expedição científica realizada em uma região de floresta próxima à Cachoeira do Evandro, no município de Mucajaí (RR), cientistas liderados pela professora Manuela Berto Pucca, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), descobriram duas espécies inéditas de escorpiões venenosos.
No âmbito do projeto AT-Biota, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), os cientistas descreveram as duas espécies, nunca antes registradas pela ciência, em artigo publicado na revista científica Diversity.
Os aracnídeos, batizados de Brotheas cernii e Cayooca puchus, foram descritos após anos de análises taxonômicas detalhadas. Novas pesquisas ainda devem ser realizadas para compreender como os compostos presentes nos venenos das espécies podem contribuir para o desenvolvimento de medicamentos e bioinseticidas.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), existem milhares de espécies ainda desconhecidas de insetos, aracnídeos, fungos e microrganismos na região amazônica.
As duas novas espécies identificadas foram encontradas em um ambiente chamado inselberg, formação rochosa isolada que se eleva acima da vegetação circundante e funciona como uma espécie de ilha ecológica, favorecendo a evolução biológica de espécies ao longo de milhares de anos.
Nesses ambientes, populações de animais e plantas podem se diferenciar gradualmente de seus parentes mais próximos, em um processo que resulta em espécies adaptadas às condições locais.
No caso do escorpião Cayooca puchus, pertencente ao gênero Cayooca, a descoberta foi considerada rara porque o gênero conta com pouquíssimos representantes conhecidos pela ciência. O nome da espécie faz referência à palavra espanhola “pucheros”, utilizada para descrever expressões faciais de espanto ou admiração.

Vista anatômica da estrutura articulada da região bucal do escorpião Cayooca puchus, uma das novas espécies descritas (Crédito: Equipe do Projeto AT-Biota-FAPESP)
Um dos aspectos que mais chamou a atenção da equipe foi o elevado grau de adaptação dos escorpiões ao ambiente onde vivem, o que os torna particularmente sensíveis a alterações de temperatura, umidade e outras condições ambientais distintas.
A espécie Brotheas cernii teve seu nome escolhido pela líder do estudo, a professora Manuela Pucca, em homenagem ao pesquisador Felipe Augusto Cerni, professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e marido da cientista, que participou das expedições e colaborou com as pesquisas, informa o Jornal da Unesp.

Detalhes da estrutura final da cauda, onde fica o ferrão do escorpião Brotheas cernii (Crédito: Equipe do Projeto AT-Biota-FAPESP)
As primeiras coletas que permitiram a descoberta foram realizadas ainda em 2016 e, desde então, diversas expedições retornaram à região em diferentes épocas do ano para coletar exemplares machos, fêmeas, jovens e adultos, a fim de reunir material suficiente para comparar os animais com todas as espécies já descritas em coleções científicas e na literatura especializada.
Os pesquisadores identificaram características distintas entre as espécies encontradas, como detalhes de coloração, tamanho corporal e a granulação das pinças, aspectos anatômicos comumente utilizados na classificação dos escorpiões.
Para validar as descobertas, foram envolvidos especialistas de diversas instituições, entre elas a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFPE), o Instituto Butantan e a Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).
Os exemplares vivos das duas novas espécies foram encaminhados, após sua descrição, para estudos adicionais na Universidade Federal de Roraima, devido à sensibilidade dos animais às condições ambientais e às restrições relacionadas ao transporte e ao manejo da fauna silvestre.
A expectativa é de que os estudos sobre suas toxinas contribuam para o desenvolvimento de medicamentos voltados ao tratamento de hipertensão, dor crônica, doenças cardiovasculares e distúrbios neurológicos, além de aplicações potenciais na agricultura, especialmente no desenvolvimento de bioinseticidas mais seletivos e menos agressivos ao meio ambiente.