Durante a Conferência Nacional de Unidades de Conservação (UCBIO), realizada nesta segunda-feira (8), o painel “Perspectivas culturais, ecológicas e científicas para a existência das Unidades de Conservação” reuniu pesquisadores para discutir o papel estratégico das Unidades de Conservação (UCs) de proteção integral na preservação da biodiversidade. Os especialistas defenderam que a gestão dessas áreas deve ser baseada em evidências científicas sólidas.
O painel contou com as participações de Fernando Fernandez (UFRJ), Reuber Brandão (UNB) e Márcia Chame (Fiocruz). As apresentações abordaram a complexidade e a urgência da gestão efetiva das UCs diante da crise climática e das extinções em massa, utilizando exemplos práticos da experiência profissional dos palestrantes.

Fernando Fernandez abriu o debate destacando que grande parte da riqueza biológica brasileira atual existe graças às UCs de proteção integral, que funcionam como barreiras contra a devastação. Ele alertou para o conceito de “floresta vazia” ou defaunação, no qual a cobertura vegetal é enganosa se os grandes animais, responsáveis por funções ecológicas como dispersão de sementes e estocagem de carbono, forem eliminados pela caça. “Se quisermos que as florestas fixem carbono, temos que ter fauna dentro delas”, afirmou. Segundo o fundador da ONG Refauna, o manejo eficaz depende de monitoramento contínuo e rigor científico: “Políticas de conservação e unidades de conservação precisam ser baseadas em evidência, não em pensamento desejoso ou em noções a priori de quem conserva e quem não conserva”.
Reuber Brandão ampliou a definição de biodiversidade, descrevendo-a como um “maquinário” complexo, no qual a interação entre os componentes é tão vital quanto a presença das espécies. Segundo ele, “o funcionamento dessa máquina que cria as propriedades que a gente chama de serviços ecossistêmicos”. O pesquisador destacou o papel das UCs na saúde física e mental humana, como fonte de bioativos que são medicamentos e até indicador de desenvolvimento socioeconômico dos países.

Márcia Chame abordou a integração entre os patrimônios natural e arqueológico, usando o Parque Nacional da Serra da Capivara como estudo de caso. Ela demonstrou como a ciência foi o pilar da criação e gestão do parque, que protege o maior acervo de pinturas rupestres do mundo e a biodiversidade da Caatinga. Chame detalhou desafios contemporâneos, como mudanças climáticas e pressão do turismo desordenado, que ameaçam tanto as pinturas quanto o ecossistema. “O turismo é importante, mas a gente tem que ordenar e tem que usar a ciência para fazer essa ordenação”, afirmou.

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