O uso da inteligência artificial na educação já é uma realidade, mas um estudo conduzido no Brasil levanta questionamentos sobre seus efeitos na aprendizagem. O pesquisador e professor André Barcaui, pós-doutor em IA pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), acompanhou universitários que utilizaram o ChatGPT em atividades acadêmicas e identificou uma queda significativa na retenção de conhecimento em comparação com alunos que utilizaram métodos tradicionais.
Exemplo de substituição nos EUA
Enquanto escolas como a Alpha School, nos Estados Unidos, substituem professores por programas digitais com currículo personalizado e carga horária reduzida para disciplinas básicas, especialistas apontam limites para a tecnologia. A instituição promete focar em 'socialização' no tempo restante, com apoio da IA.

Posição da Unesco
A Unesco defende que a inteligência artificial pode apoiar professores e estudantes, mas não substituir a dimensão humana. Segundo Shafika Isaacs, chefe da seção de Tecnologia e Inteligência Artificial na Educação do órgão, 'a educação é uma experiência social, humana e cultural'. Ela destacou riscos como a externalização do pensamento, que compromete o desenvolvimento crítico.
Estudo brasileiro
Barcaui conduziu uma pesquisa com cerca de 80 alunos de graduação, que ao final teve 50 participantes. Eles foram divididos em dois grupos: um podia usar qualquer recurso, inclusive IA (a maioria usou ChatGPT), e o outro estava restrito a métodos tradicionais, como Google e livros. Após realizarem trabalhos sobre IA, os estudantes não sabiam que seriam reavaliados.

Quarenta e cinco dias depois, um teste surpresa revelou diferenças expressivas. Os alunos que estudaram sem inteligência artificial obtiveram média de 68,5% de acertos, enquanto aqueles que usaram ChatGPT registraram 57,5%. Para Barcaui, o resultado não indica que a IA seja prejudicial por si só, mas que seu uso sem orientação pode substituir o raciocínio humano.
Conceito de 'competência emprestada'
O pesquisador classifica esse fenômeno como 'competência emprestada' ou 'muleta cognitiva' (cognitive crutch, no título do artigo). Na prática, o estudante obtém respostas sofisticadas, mas não desenvolve o conhecimento necessário para reproduzi-las. 'O problema não é a IA. É quando ela substitui o seu pensamento', resume.

'É como se você tivesse um adulto do lado que você faz pergunta. Isso não é um problema em si. O problema é você usar essa fonte como substituto do seu pensamento', explica Barcaui.
Necessidade de letramento digital
O estudo mostrou que os participantes usaram IA sem orientação pedagógica. Barcaui acredita que, com letramento digital, os resultados seriam diferentes. Ele defende que instituições de ensino devem conscientizar-se de que o mundo mudou e que os professores precisam se adaptar. 'A gente tem que ensinar as pessoas a usar, senão fica solto, sem rumo', afirma.
O pesquisador critica a proibição do uso de IA e a compara a não usar Uber em favor de táxis. Ele destaca que muitos alunos conhecem melhor as possibilidades da IA do que os próprios professores. Para ele, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial pode ser um incentivo importante, desde que implementado adequadamente.
Habilidades essenciais para os alunos
Barcaui lista quatro capacidades que considera fundamentais diante da inevitabilidade da IA:
- Leitura: desenvolve flexibilidade cognitiva e interpretação;
- Escrita: exige estruturar o pensamento sem auxílio algorítmico;
- Pequenas decisões: exercitar a mente com escolhas cotidianas sem consulta à tecnologia;
- Relacional: manter conversas reais, com hesitações e silêncios, para não desumanizar o indivíduo.
O pesquisador enfatiza que a IA deve ser usada para ampliar o pensamento, e não para substituí-lo. 'A IA é como se fosse um espelho nosso. Se a gente conhece pouco de um assunto e faz um prompt, a resposta vai ser 'copia e cola'. O que você aprendeu com aquilo? É isso que eu chamo de hipoteca: você não aprendeu nada, só deu uma resposta', conclui.