O Peru realiza neste domingo (7) o segundo turno das eleições presidenciais em meio à pior crise institucional de sua história recente. A disputa opõe dois projetos políticos distintos: de um lado, o candidato de esquerda Roberto Sánchez, que defende uma nova Constituição e maior participação popular; do outro, a conservadora Keiko Fujimori, que busca retornar ao poder com base no legado do pai, o ex-presidente Alberto Fujimori.

Pesquisas recentes apontam empate técnico entre os candidatos, enquanto cerca de um quarto do eleitorado permanece indeciso. O resultado é considerado imprevisível em um país que já teve oito presidentes na última década e enfrenta uma profunda crise de representação política.

O primeiro turno, realizado em meio a denúncias de irregularidades e dificuldades técnicas, reuniu mais de trinta candidatos e terminou com um cenário fragmentado. Juntos, Sánchez e Fujimori não alcançaram sequer 30% dos votos válidos, evidenciando o desgaste da classe política peruana.

A ex-candidata presidencial Veronika Mendoza avaliou que a eleição, por si só, não resolverá os problemas estruturais do país. “A crise política e de regime não foi resolvida pelo processo eleitoral. Uma solução constituinte ainda está pendente, a qual teremos que continuar construindo desde a base, a partir dos territórios, e reconstruindo a política”, afirmou ao Brasil de Fato.

Perfis dos candidatos

Roberto Sánchez, psicólogo de 57 anos, construiu sua campanha como representante do chamado “Peru profundo” — formado por trabalhadores, agricultores, populações rurais e comunidades indígenas historicamente afastadas dos centros de poder. Sua principal bandeira é a convocação de uma Assembleia Constituinte para substituir a Constituição de 1993, elaborada durante o governo de Alberto Fujimori. Ele também defende um Estado plurinacional, com maior participação dos povos indígenas, e reformas no Judiciário.

Keiko Fujimori, de 51 anos, disputa a presidência pela quarta vez. Sua campanha foca em endurecimento na segurança pública, ampliação do papel das Forças Armadas e combate ao crime organizado. Diferentemente de eleições anteriores, quando buscava se afastar da figura paterna, Keiko tem adotado um discurso que recupera abertamente elementos do fujimorismo.

Contexto de crise

O fujimorismo continua sendo um dos temas mais divisivos da política peruana. Alberto Fujimori governou o país entre 1990 e 2000, período marcado pelo combate ao grupo Sendero Luminoso e por denúncias de autoritarismo, corrupção e violações de direitos humanos. Mesmo após sua morte, em 2024, seu legado influencia o debate político nacional.

Para o cientista político Alonso Cárdenas, da Universidade Antonio Ruiz de Montoya, em Lima, a postura de Keiko Fujimori após derrotas eleitorais anteriores contribuiu para aprofundar a crise institucional. Em entrevista à BBC News Mundo, ele afirmou que a recusa da candidata em reconhecer os resultados eleitorais de 2016 e 2021 foi um dos fatores que alimentaram a instabilidade política dos últimos anos.

Sánchez também enfrenta críticas por sua proximidade política com o ex-presidente Pedro Castillo, destituído em 2022 após tentar dissolver o Congresso. A oposição explora essa relação durante a campanha, enquanto investigações sobre o candidato voltaram a ganhar destaque após o primeiro turno.

Analistas observam que boa parte da disputa eleitoral tem sido marcada pelo confronto entre dois sentimentos fortes da sociedade peruana: o desejo de mudanças profundas e o receio de um retorno do fujimorismo ao Palácio do Governo.

Desafios do próximo governo

Independentemente de quem vencer, o próximo presidente encontrará enormes dificuldades para governar. O Congresso peruano permanece fragmentado e é frequentemente apontado como um dos principais focos da instabilidade política. Nos últimos anos, o Legislativo teve papel central em sucessivas crises que resultaram na queda de presidentes e no agravamento dos conflitos institucionais.

Ao mesmo tempo, o Peru enfrenta o avanço da criminalidade organizada, o aumento dos homicídios e das extorsões em diversas regiões. O desafio do próximo governo será reconstruir a confiança nas instituições, reduzir a polarização política e apresentar respostas concretas para problemas que se acumulam há anos.

Com informações de Revista Fórum.