Uma perícia da Polícia Técnico-Científica concluiu que o disparo que matou o soldado Matheus Almeida Rodrigues, de 28 anos, durante uma ocorrência em Sorocaba (SP) em abril deste ano, foi efetuado por uma arma da própria Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP). A informação, confirmada pela Ponte, foi divulgada inicialmente pelo site Metrópoles. O caso, que a princípio foi tratado como morte em confronto com assaltantes, agora é investigado como possível “fogo amigo” — ainda não se sabe se o tiro foi acidental ou intencional.
Contexto do caso
O incidente ocorreu na madrugada de 11 de abril de 2026, após o roubo de uma farmácia no bairro Parque Campolim. Quatro criminosos participaram do assalto. A Polícia Militar foi acionada e, ao chegar ao local, houve troca de tiros. Três assaltantes morreram baleados; o quarto, um motoboy de 19 anos sem antecedentes criminais, sobreviveu e foi preso. O soldado Matheus foi atingido por um tiro na cabeça e morreu. Inicialmente, a versão oficial era de que ele havia sido morto pelos criminosos durante o confronto.

No entanto, vídeos de câmeras de segurança e depoimentos contraditórios de policiais e testemunhas levantaram dúvidas. As imagens mostram que Matheus só foi baleado cerca de um minuto após os colegas terem efetuado diversos disparos contra o veículo dos assaltantes. Além disso, relatos indicam que os agentes sabiam previamente que o assalto ocorreria, mas optaram por uma reação armada em vez de tentar evitar o crime.
Evidências periciais
A análise do projétil retirado do crânio de Matheus apontou “elementos sugestivos” de que se tratava de uma munição calibre .40 S&W ou compatível. Esse é o mesmo calibre das pistolas Glock modelo G22 Gen5 utilizadas pelos policiais militares na ocasião. Os assaltantes, segundo a versão dos PMs, portavam dois revólveres Taurus de calibre .38 — calibre diferente do que matou o soldado. Nenhum policial ouvido levantou a hipótese de que um criminoso teria tomado uma arma dos agentes, o que reforça que o disparo fatal só poderia ter partido de uma arma da PM.

A Polícia Técnico-Científica analisou oito pistolas Glock apreendidas dos policiais, mas não foi possível determinar de qual delas partiu o tiro. O Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), que já denunciou o único assaltante sobrevivente, não solicitou esclarecimentos adicionais sobre a morte do policial no âmbito dessa investigação. A Corregedoria da PM também conduz um inquérito sobre o caso.
O assalto e a sequência de eventos
O roubo começou por volta de 1h35. Dois assaltantes renderam a gerente e a levaram até o cofre. A gerente reconheceu um deles de um assalto anterior, em janeiro. Um terceiro assaltante rendeu os demais funcionários e levou canetas emagrecedoras. A gerente afirmou à Polícia Civil que os criminosos pareciam calmos e conheciam a operação da farmácia. Ela disse ter visto apenas uma arma com os dois assaltantes que a acompanhavam; o outro mantinha a mão como se estivesse armado, mas sem exibir arma. Outra funcionária relatou que o terceiro assaltante também não mostrou arma, embora tenha ameaçado as vítimas.
Os assaltantes saíram da farmácia por volta de 1h48 e correram em direção a um Volkswagen Virtus prata, roubado em Franco da Rocha no dia 3 de abril. Câmeras de segurança registraram a chegada dos policiais, que começaram a atirar contra o veículo. Três criminosos morreram no local; o quarto, o motoboy, fugiu a pé, mas foi capturado posteriormente.
Depoimentos conflitantes
O sobrevivente do assalto, de 19 anos, declarou à polícia que o grupo tinha apenas uma arma de brinquedo e que tentou se render, mas não houve tempo. “Nós tava com arma de brinquedo. De fogo, não tava”, disse ele. Nos vídeos da ocorrência, não é possível ver nitidamente os assaltantes armados ou atirando.
Onze policiais militares envolvidos na ocorrência foram ouvidos. Todos afirmaram que já tinham informação prévia de que a farmácia poderia ser alvo de assalto naquela madrugada; dois deles sabiam especificamente qual seria o alvo, devido ao histórico de roubos no local. Em seus depoimentos, os PMs sustentaram a versão de confronto, mas seus relatos divergem entre si e contradizem as imagens.
O momento do tiro fatal
O vídeo mostra que, às 1h50min50s, a situação já estava contida e não havia mais disparos. Matheus ainda não estava no local. Vinte segundos depois, chegaram mais três viaturas, e ele desembarcou. O soldado caminhou pela calçada até se aproximar do corpo do motorista caído à esquerda do carro. Três outros policiais deram a volta pela traseira do veículo e se posicionaram do lado direito, oposto a Matheus. Um dos assaltantes ainda estava dentro do carro, no banço do passageiro dianteiro — não é possível saber se já estava morto.
Os três policiais que estavam do lado direito disseram à Polícia Civil que pretendiam desarmar o assaltante dentro do veículo. Quando um deles abriu a porta, o assaltante teria atirado, mas não na direção deles, sim para o lado esquerdo, onde Matheus estava. Depois, o assaltante teria se virado e atirado contra eles, que reagiram e o mataram. Questionados se o tiro que atingiu Matheus poderia ter partido de um deles (fogo amigo), um policial disse acreditar que foi o assaltante; outro afirmou que “possivelmente foram deles” (os assaltantes); o terceiro disse que foi “uma situação muito agitada” e que não saberia esclarecer.
O vídeo não mostra o lado direito do carro, onde estavam os três PMs e o assaltante. Nos instantes anteriores ao disparo, do lado esquerdo, um policial se agacha para revistar o motorista caído; outro corre para trás de uma viatura como se visse ameaça; um terceiro sinaliza para Matheus se afastar. Logo depois, Matheus é atingido na cabeça, à 1h51min49s.
Investigações em andamento
A Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) informou que os policiais envolvidos foram afastados do trabalho nas ruas até a conclusão das investigações. Além do inquérito da Polícia Civil e da Corregedoria da PM, o caso segue sob análise, sem conclusão sobre a responsabilidade pelo disparo que matou o soldado Matheus.