Perfis falsos de médicos criados por inteligência artificial (IA) têm se multiplicado em plataformas como TikTok, YouTube e Facebook, disseminando informações enganosas sobre saúde e gerando lucro para seus criadores. Os vídeos, que simulam profissionais de jaleco branco com voz e imagem sintéticas, prometem curas milagrosas para doenças como gastrite, catarata e ansiedade, sem qualquer embasamento científico.
Em um dos exemplos, um médico fictício no TikTok afirmava que suco de batata combate gastrite, azia e a bactéria H. pylori, responsável por úlceras. O vídeo acumulou 2,2 milhões de visualizações antes de ser removido. No YouTube, um senhor com traços orientais, também gerado por IA, promete curar catarata com uma mistura de alho, limão e mel, em um vídeo com mais de 1,2 milhão de visualizações. Na realidade, a catarata só é tratada com cirurgia.
Modelo de negócio baseado em desinformação
De acordo com Mario Aquino Alves, coordenador do Desinfo.Pop (Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas) da FGV, o avanço da IA barateou a produção desse tipo de conteúdo e democratizou o modelo de negócios. Qualquer pessoa interessada em faturar com a monetização de publicações pode replicar o sistema. Os vídeos seguem um formato padronizado: usam fragmentos de informações verdadeiras para construir narrativas de apelo fácil e apresentar soluções sem respaldo científico.
A monetização ocorre em duas etapas. A primeira está relacionada ao alcance das visualizações — no TikTok, criadores podem ser remunerados se tiverem ao menos 10 mil seguidores e 100 mil visualizações em 30 dias e produzirem conteúdo original com mais de um minuto. A segunda etapa é a venda direta de produtos, como dióxido de cloro, zeólita e suplementos minerais, anunciados como remédios milagrosos em grupos no Telegram.
Impacto na América Latina
O Desinfo.Pop mediu o tamanho do problema na América Latina e no Caribe. Publicações sobre diabetes em grupos conspiracionistas acumularam 106 milhões de visualizações e 2,5 milhões de compartilhamentos entre 2016 e 2025. Mais de um terço delas circularam em comunidades dedicadas ao charlatanismo. Foram encontradas também 47 mil postagens sobre autismo no Telegram entre 2015 e 2025, que tiveram 99 milhões de visualizações e alcançaram 4,2 milhões de usuários.
Segundo Alves, a lógica dos criadores é transformar a desinformação em modelo de negócio e o medo em oportunidade de venda. Os alvos são pessoas que desconfiam da ciência e têm suas convicções reforçadas pelos conteúdos. “É um sistema que se retroalimenta”, afirma o pesquisador.
Formatos de conteúdo falso
A reportagem identificou três formatos principais de conteúdo médico falso gerado por IA. O primeiro simula a voz e a imagem de humanos vestidos como médicos. O segundo envolve animações com personagens caracterizados como médicos. O terceiro usa desenhos animados para fazer órgãos do corpo ou ingredientes falarem diretamente com o usuário. Apenas no TikTok, seis conteúdos de saúde encontrados somam mais de 14 milhões de visualizações.
Resposta das plataformas e do CFM
Após ser questionado, o TikTok removeu alguns perfis apontados. A empresa afirmou que proíbe desinformação em saúde que possa causar danos significativos e conteúdos gerados por IA que induzam ao erro. O YouTube disse que a IA é uma ferramenta como outra qualquer e que o conteúdo deve estar em conformidade com as diretrizes da comunidade. A plataforma analisou um canal indicado e constatou que há vídeos fora das políticas de monetização, mas a página seguia no ar.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) prepara uma plataforma de IA, prevista para junho, que vai vasculhar as redes em busca de perfis e conteúdos nocivos à saúde. De acordo com Jeancarlo Cavalcante, coordenador da comissão de inteligência artificial da autarquia, o volume de produção inviabiliza a fiscalização manual. O material identificado será analisado por humanos e, se confirmado, encaminhado aos conselhos regionais para providências, incluindo denúncias ao Ministério Público e à polícia.
A Meta, responsável pelo Facebook e Instagram, afirmou que proíbe desinformação prejudicial à saúde e mantém uma rede de verificadores de fatos. O Telegram não respondeu até a publicação.
Com informações de Folha — Tec.