Pela primeira vez no Brasil, dois centros transplantadores de cidades diferentes realizaram um transplante renal com doação pareada. O procedimento, conduzido pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) e pela Santa Casa de Juiz de Fora (MG), ocorreu em maio e faz parte de um protocolo de pesquisa aprovado pela Comissão de Ética do Hospital das Clínicas. Ambos os pacientes passam bem.
Primeira troca interestadual
As cirurgias foram realizadas simultaneamente nas duas instituições. Um doador de São Paulo viajou para Juiz de Fora para doar seu rim a um receptor mineiro, enquanto o doador da cidade mineira foi ao Hospital das Clínicas, na capital paulista, para doar a um paciente paulista. A simultaneidade é uma das medidas de segurança do modelo, segundo Elias David Neto, diretor do Serviço de Transplante Renal do HC. “É importante porque evita que um dos doadores desista depois que o outro procedimento já foi realizado”, afirmou.

Como funciona a doação pareada
O transplante renal com doação pareada funciona como uma troca organizada. Um paciente que precisa de um rim pode ter um doador — como um irmão, cônjuge ou amigo próximo —, mas esse órgão pode não ser compatível devido a diferenças sanguíneas ou imunológicas. Ao mesmo tempo, outro paciente está em situação semelhante: seu doador não serve para ele, mas pode ser compatível com o primeiro receptor. Com a troca, ambos recebem um rim de doador vivo. “Quando faz essa troca, você tira essas pessoas da lista de doador falecido e aumenta o número de transplantes”, explicou David Neto.
A estratégia é utilizada há anos em países como Estados Unidos e Japão, mas ainda não foi incorporada à rotina dos transplantes brasileiros. No Brasil, o procedimento segue como pesquisa porque não há regulamentação específica do Sistema Nacional de Transplantes para essa modalidade. “A finalidade da lei é impedir o comércio de órgãos. No transplante pareado, o doador não está vendendo o rim. Ele está doando para que outra pessoa receba um órgão compatível e para que seu familiar ou pessoa próxima também tenha acesso ao transplante”, afirmou David Neto.

Desafios regulatórios
Segundo David Neto, a principal justificativa apresentada para a não regulamentação é a ausência de uma norma específica. Para ele, a legislação precisa acompanhar avanços que já demonstraram segurança em outros sistemas de saúde. “As leis não conseguem antecipar o progresso da sociedade. Primeiro uma prática começa a existir, depois vem a regulamentação”, disse. Ele afirma que não há um conflito ético novo, pois o Brasil já permite, em certas circunstâncias, a doação de pessoas sem parentesco direto, desde que haja autorização judicial e comprovação de ausência de interesse financeiro. Atualmente, a legislação brasileira permite a doação em vida entre parentes de até quarto grau e cônjuges. Nos casos de pessoas sem vínculo familiar, é necessária autorização judicial. No transplante pareado, o doador concorda em doar a um desconhecido porque seu familiar ou amigo também será beneficiado.
Potencial para reduzir a fila de espera
O Hospital das Clínicas já havia realizado um transplante pareado em 2020, mas com pacientes da própria instituição. A novidade agora é a integração entre hospitais de diferentes cidades, permitindo que centros compartilhem informações de potenciais doadores e receptores. “Quanto mais centros colocarem seus pares incompatíveis em uma mesma base de dados, mais fácil será encontrar combinações possíveis”, explicou David Neto.
Para encontrar os pares compatíveis, foi utilizada uma plataforma internacional desenvolvida nos Estados Unidos, que cruza informações como características imunológicas, tamanho corporal e qualidade do rim do doador. A ferramenta permite identificar combinações com maior chance de sucesso. Ampliar o número de instituições participantes é o próximo passo para que a estratégia tenha impacto nacional, segundo David Neto.
Atualmente, cerca de 45 mil pessoas aguardam por um transplante de rim no Brasil. O órgão representa a maior demanda na fila nacional, correspondendo a aproximadamente 92% de toda a lista de espera por órgãos no país. Também é o mais transplantado: em 2025, foram realizadas 6.697 cirurgias, marca inédita, com crescimento de 5,9% em relação a 2024. A expansão do transplante com doador vivo pode reduzir essa demanda e reservar os órgãos de doadores falecidos para quem não tem outra alternativa.
Os dois pacientes transplantados no procedimento pioneiro tiveram boa evolução clínica. O paciente do Hospital das Clínicas recebeu alta no quinto dia após a cirurgia, e o de Juiz de Fora deixou o hospital após sete dias. Para os especialistas, o caso demonstra que a barreira atual é menos tecnológica do que regulatória e logística. “É uma técnica realizada em muitos países do mundo. Quanto mais demorarmos para incorporar, mais pacientes deixam de se beneficiar”, afirmou David Neto.