O pedreiro Marcelo da Cruz Silva, de 41 anos, foi morto a tiros por policiais militares na manhã de quarta-feira (27) em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Há cerca de um mês, ele havia se mudado com a companheira para uma casa própria recém-adquirida no bairro Jardim Catarina, onde planejava fazer reformas. Também foi morto no mesmo incidente o ajudante de obras Edivan Felipe de Assis, de 46 anos, que estava na garupa da moto de Marcelo.
Segundo a Polícia Militar, os agentes do 7º Batalhão de Polícia Militar (BPM) estavam prestando apoio a funcionários de uma operadora de telefonia na região da Ipuca, comunidade do Jardim Catarina. A alegação inicial é de que uma ferramenta de trabalho teria sido confundida com uma arma de fogo. No entanto, vizinhos relataram que os dois foram baleados antes de qualquer abordagem ou tentativa de parada, sem que houvesse ameaça que justificasse legítima defesa.

Após os disparos, moradores se reuniram em torno dos corpos, temendo que a cena fosse alterada antes da perícia. Ainda pela manhã, houve um protesto na região, com tentativa de bloquear a BR-101. Policiais reprimiram os manifestantes com balas de borracha.
O corpo de Marcelo foi sepultado na quinta-feira (28) e o de Edivan, na sexta-feira (29). A família de Edivan não quis se manifestar. Um familiar de Marcelo afirmou à Ponte Jornalismo: “Ele era um trabalhador, um cara cheio de sonhos, não fazia mal para ninguém. Ele não teve direito de se defender.”
A região da Ipuca, com cerca de 9 mil moradores, sofre com falta de água, coleta de lixo precária, ruas sem asfalto e transporte público insuficiente. Moradores relatam que operações policiais constantes interrompem a rotina, impedindo crianças de ir à escola e adultos de trabalhar. “Só entram aqui para atirar. No ano todo, a criança só vai metade do tempo que tem para estudar”, disse um morador.
De acordo com o Instituto Fogo Cruzado, até sexta-feira (29), a região metropolitana do Rio registrou 367 pessoas baleadas em ações policiais em 2026, das quais 181 morreram. O total de baleados no Grande Rio é de 698 vítimas.
A Polícia Civil informou que as armas dos policiais envolvidos foram apreendidas para perícia e que as imagens das câmeras corporais foram solicitadas. A investigação está a cargo da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG). A tenente-coronel Claudia Moraes, porta-voz da PM, afirmou que os policiais foram afastados do trabalho operacional nas ruas.
A PMERJ, em nota, disse que conduz procedimento próprio e que “preza pela transparência de suas ações colaborando integralmente com as investigações do caso”. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) instaurou procedimento para acompanhar a apuração e requisitou imagens das câmeras corporais à Corregedoria da Polícia Militar.
Com informações de Ponte Jornalismo.