As facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), originadas em presídios brasileiros há mais de três décadas, tornaram-se elementos centrais na logística do tráfico internacional de cocaína. Essa posição foi conquistada por meio de parcerias com máfias, cartéis latino-americanos e outros grupos criminosos estrangeiros, alguns dos quais são classificados como terroristas pelos Estados Unidos.

A conclusão é extraída de pesquisas sobre o tráfico global de drogas, investigações policiais e análises de especialistas no desenvolvimento das facções brasileiras. As duas organizações foram oficialmente incluídas na lista de grupos terroristas do governo americano nesta sexta-feira (5). Entre as outras 94 organizações já listadas, ao menos quatro mantiveram relações com PCC ou CV, segundo investigações e relatórios — todas são grupos latino-americanos adicionados em 2025 por decisão do governo de Donald Trump.

De um lado, PCC e CV recebem drogas dos grandes produtores de cocaína, principalmente na Colômbia, Peru e Bolívia. Do outro, abastecem as máfias especializadas no varejo da droga na Europa, mercado consumidor que registrou expansão contínua na última década. De acordo com dados da Agência da União Europeia para Drogas, houve recordes de apreensão de cocaína no continente por sete anos consecutivos, de 2017 a 2023.

As facções brasileiras não têm papel relevante no tráfico de cocaína para os EUA, mas mantêm conexões com grupos que dominam a produção da pasta-base nos países andinos e, no caso do PCC, com cartéis que estão entre os principais fornecedores da droga para o mercado americano.

Segundo o pesquisador Christian Vianna, subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, “PCC e CV operam com cartéis mexicanos, os principais inimigos públicos dos Estados Unidos depois dos grupos terroristas islâmicos. Eles inundam os Estados Unidos de fentanil, cocaína, maconha, outras drogas. E as parcerias com PCC e CV viabilizam isso também.”

Relações com grupos colombianos e mexicanos

A relação do CV com as antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) remonta à década de 1990. Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, foi um dos pioneiros entre traficantes do Rio de Janeiro que viajaram à Colômbia para negociar o fornecimento de droga diretamente com produtores. Os EUA incluíram as Farc na lista de grupos terroristas em 2021, embora elas já estivessem formalmente extintas como organização armada, restando apenas dissidentes que não aderiram ao acordo de paz. Segundo artigo de Vianna publicado no ano passado, há evidências de que o comércio ilícito entre grupos dissidentes e o CV continua.

Investigações policiais e pesquisas de campo apontam conexões do PCC com o Cartel de Jalisco Nueva Generación (um dos maiores do México), o Clã do Golfo e a Oficina de Envigado (ambos colombianos). Há evidências de que esses grupos operam em consórcios para enviar cocaína por rotas marítimas a partir da região amazônica, escondida em navios ou em submarinos construídos especialmente para o transporte da droga.

Roberto Uchôa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, pesquisador na Universidade de Coimbra e ex-policial federal, afirma que “os narcossubmarinos aparecem num contexto de ‘joint ventures’ de organizações criminosas. É uma tecnologia que está sendo desenvolvida tanto por cartéis mexicanos quanto por grupos armados colombianos.”

Presença do Tren de Aragua e parcerias europeias

Desde a crise migratória na Venezuela, no fim da década de 2010, a presença de membros da facção Tren de Aragua tem sido registrada em municípios brasileiros. Investigações indicam que eles têm negócios com PCC e CV na região Norte, envolvendo tráfico de armas, drogas e garimpos na Amazônia. Segundo Uchôa, “o Tren de Aragua entrava com a ocupação [de áreas para garimpo], com os refugiados da Venezuela [como mão de obra], e o PCC atuava fornecendo a logística: armas, internet, aviões e a lavagem do dinheiro do ouro. Eles trabalhavam conjuntamente.”

Autoridades brasileiras e europeias apontam para uma expansão das relações comerciais entre o PCC e a máfia italiana ‘Ndranghetta, grupos albaneses e o Clã Saric, dos Bálcãs. Essas organizações não são consideradas terroristas pelos EUA.

Mudanças nas rotas do tráfico

As táticas para levar droga à Europa mudaram ao longo dos anos. Os portos de Roterdã (Holanda) e Antuérpia (Bélgica) eram as principais portas de entrada da cocaína até recentemente. Segundo Uchôa, a península ibérica passou a ser o ponto de entrada preferencial após o endurecimento das fiscalizações. Mais recentemente, países da África ocidental (Senegal, Nigéria, Gana e Serra Leoa) ganharam papel fundamental na logística. Traficantes brasileiros usam essa região como rota até o mar Mediterrâneo, completando o transporte com viagens de lancha a partir da costa norte da África em direção à Europa.

Definição de terrorismo e posição do Brasil

A classificação do que é terrorismo varia entre países. A versão mais aceita define como ação violenta deliberada contra civis, com o objetivo de intimidar a população ou o governo, normalmente associada a causa política ou religiosa. Segundo o Departamento de Defesa dos EUA, grupos são classificados como terroristas quando usam violência e ameaçam o território americano, desde que sejam estrangeiros. Antes do anúncio, a pasta já havia manifestado que considerava PCC e CV como um “perigo” para a região.

No Brasil, a Lei Antiterrorismo considera como atos terroristas apenas aqueles com “finalidade de provocar terror social ou generalizado” por motivos de “xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião”, excluindo motivações políticas. O governo brasileiro não possui lista autônoma de grupos terroristas, seguindo apenas resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

Com informações de Folha — Cotidiano.