O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) estão presentes em mais estados brasileiros do que a rede de fast-food McDonald's. Na sexta-feira (5.jun.2026), o Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou as duas facções criminosas como “organizações terroristas estrangeiras”.
De acordo com o Mapa das Organizações Criminosas de 2024 do Ministério da Justiça, ambas as facções atuam em 25 estados e no Distrito Federal. A única exceção é o Rio Grande do Sul, que possui grupos criminosos próprios. O PCC, originado em São Paulo, não atua no Rio de Janeiro, enquanto o CV, criado no Rio, não está presente em São Paulo.
Segundo dados do McDonald's, a rede possui unidades em 23 dos 26 estados brasileiros e também no DF. Apenas Acre, Amapá e Roraima não têm restaurantes da companhia. O McDonald's chegou ao Brasil em 1979 e atualmente conta com pelo menos 1.020 restaurantes, mais de 75 McCafés e aproximadamente 2.010 data centers, empregando mais de 50 mil pessoas no país.
No primeiro trimestre de 2026, o McDonald's Brasil registrou lucro líquido de US$ 1,98 bilhão (R$ 10,24 bilhões), alta de 6% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita somou US$ 6,52 bilhões (R$ 33,72 bilhões), crescimento de 9% na mesma base de comparação.
Lista do 'terrorismo'
A decisão de incluir PCC e CV na lista de organizações terroristas foi divulgada em 28 de maio, após reunião do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o presidente Donald Trump (Partido Republicano) na Casa Branca. O congressista, pré-candidato à Presidência, afirmou que defendeu a medida ao mandatário norte-americano.
Na prática, a inclusão na lista de FTOs (Organizações Terroristas Estrangeiras) permite que o governo dos EUA adote ações mais incisivas de fiscalização e repressão a pessoas e empresas com vínculos diretos ou indiretos com as facções.
Para o professor de Direito Internacional da Universidade de Brasília (UNB) e procurador-Regional da República Vladimir Aras, a medida tem impactos “escassos” no combate às facções brasileiras. Ele ressaltou que, embora a decisão fortaleça o debate público nacional e internacional, não há indicativo de efeitos práticos concretos.
Segundo Aras, a inclusão ganha força no contexto geopolítico, mas o Brasil já possui instrumentos legais mais eficientes, como a Lei 15.358 de 2026, conhecida como Lei Antifacção. Ele argumenta que a nova lei cria penas mais severas que a legislação de combate ao terrorismo. O professor explicou que, pelas leis brasileiras, considerar PCC e CV como organizações terroristas limitaria o combate aos órgãos federais, enfraquecendo a participação dos estados. Ele destacou que, enquanto lideranças terroristas podem receber penas de 12 a 30 anos de prisão, a Lei Antifacção permite punir líderes criminosos com até 40 anos de reclusão.
“Se a intenção dos EUA é combater as organizações criminosas, seria mais eficaz fortalecer os mecanismos de cooperação internacional, trazendo mais informações para as agências de enfrentamento”, defendeu Aras.
PCC
Fundado em 1993, o Primeiro Comando da Capital surgiu na Casa de Custódia de Taubaté, a cerca de 130 km da capital paulista. Conhecida como “Piranhão”, é uma das penitenciárias mais rígidas do estado. Criado por detentos que alegavam combater abusos do sistema prisional, em meio à repercussão do Massacre do Carandiru, o grupo se expandiu e se tornou a maior organização criminosa do país.
Segundo o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, a facção reúne até 40 mil integrantes e movimenta aproximadamente R$ 6 bilhões por ano. Mesmo após prisões de líderes, como Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, a facção manteve crescimento exponencial de influência dentro e fora de presídios.
O PCC é financiado principalmente pelo tráfico de drogas, mas roubos de cargas, assaltos a bancos e sequestros também são fontes de faturamento. O grupo adquiriu influência por rebeliões em presídios; só em São Paulo, são cerca de 10 mil membros em 90% das penitenciárias.
Investigadores afirmam que países vizinhos, como Bolívia, Paraguai e Colômbia, têm “braços” do PCC, que seguem diretrizes, pagam mensalidades e agem de acordo com a ordem dos superiores, em estrutura semelhante à de uma empresa. A facção também tem entrada no mercado financeiro. Em 28 de agosto de 2025, a Polícia Federal deflagrou operação contra a Reag Investimentos, listada na B3, investigada por possível participação em esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC.
A capacidade de executar pessoas em lugares públicos, envolver-se em guerras contra outras facções e exercer poder sobre moradores de comunidades são marcas da facção. No final de 2024, um ex-membro foi assassinado na área de desembarque do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Vinícius Gritzbach era delator do PCC, responsável por expor nomes de traficantes, lideranças e policiais corruptos.
Comando Vermelho
Criado no Rio de Janeiro no fim da década de 1970, o Comando Vermelho nasceu no presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande, a partir do convívio entre presos comuns e militantes de grupos armados que combatiam o regime militar. Inicialmente chamada de Falange Vermelha, a organização adotava o lema “Paz, Justiça e Liberdade”.
O Comando Vermelho se desenvolveu de forma mais descentralizada que o PCC. A vinculação ao CV tende a ser menos formal; não há processos de filiação e batismo, lista única de integrantes ou critérios padronizados de adesão. Muitas pessoas ligadas a grupos do tráfico em áreas controladas pela facção se identificam como parte do Comando Vermelho, mesmo sem integrar uma estrutura formal.
A ascensão da facção coincidiu com a entrada do Brasil na rota internacional da cocaína, no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980. O tráfico de drogas permitiu que a organização ampliasse sua presença nas favelas cariocas e consolidasse influência sobre comunidades inteiras. No Rio, o Comando Vermelho divide espaço com outros grupos criminosos, como milícias, o Terceiro Comando Puro e os Amigos dos Amigos, em disputas recorrentes pelo controle de comunidades e rotas do tráfico.
Em outubro de 2025, uma megaoperação da Polícia Militar teve como alvos integrantes e lideranças do Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. A ação deixou 122 mortos e foi classificada como a mais letal da história do país.
Com informações de Poder360.