Nascida em Campinas (SP), a pastora Roselen Boerner Faccio, 57, fundou a Sabaoth Church, uma igreja evangélica de matriz pentecostal que existe há 32 anos na Itália, onde vive desde 1989. A sede da igreja fica em Milão, no bairro popular de Giambellino, e ocupa um teatro com capacidade para cerca de mil pessoas.

Em um culto realizado em meados de maio, a maioria dos presentes era italiana, com alguns brasileiros e outros sul-americanos. O idioma oficial, tanto no palco quanto entre os fiéis, é o italiano. A pregação de Roselen, em italiano fluente, mistura citações bíblicas com frases diretas e anedotas pessoais. "Jesus disse: 'Se você quer vir atrás de mim, pegue a sua cruz e me siga'. Chega de ter pena de si próprio, chega de viver na autocomiseração", afirmou durante o culto.

Além do teatro, o edifício da Sabaoth abriga estúdios de gravação, escola infantil, livraria e uma loja de produtos personalizados. A igreja mantém perfis em plataformas digitais e possui editora própria. "A nossa visão é mudar a história religiosa da Itália e não só, voltando a ter uma fé viva", diz o site da igreja.

Trajetória religiosa

Roselen contou que sua ligação com a religião começou na infância, por influência da mãe, que frequentava as Testemunhas de Jeová, enquanto o pai, ateu, preferiu que ela fizesse o catecismo católico. Aos 13 anos, ingressou em grupos de jovens da Renovação Carismática Católica, movimento com traços pentecostais. Foi nessa época que ela relata ter tido o primeiro contato direto com Deus: "Foi uma experiência física: alguém pegou na minha mão, literalmente".

Aos 19 anos, veio para a Itália de férias, sem roteiro definido, e passou por dificuldades em Roma, como furto e falta de dinheiro. Acabou indo para Milão e, em contato com católicos, estabeleceu-se em um convento em Collemancio, onde cuidava de paróquias. Lá, passou a ler a Bíblia intensamente e entrou em crise. "Tinha algo errado. Ali tinha escrito uma coisa e a gente vivia outra", afirmou. "Eu queria um Deus direto."

De volta a Milão, conheceu uma pastora americana e um italiano, e começaram a orar em pequenos grupos. Alugaram um pub aos domingos e, com o crescimento, passaram a usar teatros. Desde o início, o público-alvo são os italianos. "Os pastores brasileiros abrem igrejas no mundo para brasileiros. Não sou contrária, mas não é a minha visão ir a um lugar e abrir um grupinho de brasileiros que come coxinha", disse Roselen. "Eu sou brasileira, mas consegui trazer fé para os nativos."

Estrutura e expansão

A cadeia de comando da Sabaoth é formada por 16 casais, sendo 28 italianos e 4 brasileiros. Segundo a pastora, existem 94 representações da igreja, a grande maioria na Itália, além de unidades na Suíça, Alemanha e Albânia. Em 2025, foi aberta uma igreja em Londres (Inglaterra), e nos próximos meses deve ser inaugurada uma em Nova York (EUA). No Brasil, são três: Campinas, Florianópolis (SC) e Vila Velha (ES).

Na área metropolitana de Milão, funciona a Hangar 28, escola de formação de missionários fundada pela pastora, com curso bienal que custa quase 14 mil euros (R$ 82,3 mil). A igreja também promove os Life Groups, reuniões semanais na casa de fiéis, e cada novo fiel recebe um mentor. Há setores que organizam encontros sobre virgindade, genitorialidade, alcoolismo e drogas, além de um movimento contra o aborto e uma área para pessoas com "atração indesejada pelo mesmo sexo".

Sobre a visão da igreja em relação à comunidade LGBTQIA+, Roselen afirmou: "É óbvio que eu creio que Deus criou homem e mulher, mas não sou como outros pastores que batem muito nisso. Creio que muitas pessoas vêm de histórias difíceis. Então, são super bem-vindas".

Finanças e ações sociais

É recomendado que os fiéis doem 10% do que recebem. Roselen evitou dar números sobre a arrecadação anual, mas afirmou: "Entra um bom dinheiro. Para onde ele vai? No ano passado, 500 mil euros (R$ 2,94 milhões) foram para a Guerra da Ucrânia". A igreja também realiza ações sociais locais, como distribuição de alimentos em parceria com uma ONG italiana, e organiza missões em países em conflito ou abalados por tragédias, como Afeganistão e Turquia.

Roselen, que é solteira, disse já ter sido vítima de preconceito por ser pastora mulher. "No mundo evangélico, inclusive, mas nunca dei atenção. Fiz uma revolução, sou a primeira mulher pastora na Itália inteira." Ela afirma não ter muita proximidade com o Brasil nem com outras denominações evangélicas, mas mantém contato com o pastor Silas Malafaia. Admiradora da primeira-ministra Giorgia Meloni, conservadora católica, disse ter "zero" relação com os Bolsonaro.

Sobre seus planos, Roselen declarou: "A minha missão é pregar onde ninguém pregou. Entre Brasil e Macedônia, eu vou para a Macedônia. Entre Brasil e Montenegro, vou para Montenegro. A Itália tem 4.000 cidades pequenas sem igreja. Falta chegar em todas elas."

Com informações de Folha — Cotidiano.