Um consórcio de pesquisa entre o Hospital Xuanwu, em Beijing, e a Associação Alberto Santos Dumont Para Apoio à Pesquisa (AASDAP), liderada pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, está obtendo resultados expressivos na reabilitação de pacientes paraplégicos. O projeto, batizado de Programa Andar de Novo, combina cirurgia de estimulação elétrica na medula e no cérebro com treinamento em exoesqueleto e interface cérebro-máquina (ICM).

O paciente Wang Zhiming, natural da província de Gansu, sofreu um acidente que lhe causou paraplegia completa. Em 16 de maio de 2025, ele foi submetido a um procedimento cirúrgico no qual foi implantado o dispositivo 'Beinao-1', capaz de registrar mais de 100 canais de sinais de eletroencefalograma (EEG). Simultaneamente, os médicos iniciaram a estimulação da coluna dorsal e o treinamento com exoesqueleto. Um ano depois, Wang já consegue caminhar com órteses e muletas, e relata ter recuperado sensações na região da virilha.

Detalhes da cooperação científica

O neurocirurgião Zhao Guoguang, diretor do Hospital Xuanwu e principal referência chinesa em interface cérebro-máquina, explicou que a parceria com Nicolelis permitiu transferir o protocolo de neuroreabilitação desenvolvido no Brasil para a China. A equipe chinesa estagiou no laboratório de Nicolelis, e o grupo brasileiro visitou Pequim para ministrar cursos e acompanhar os trabalhos. No Hospital Xuanwu, foi criado o Laboratório Caminhada Plena, que exibe os logotipos das duas instituições.

Nicolelis, que lecionou na Universidade Duke (EUA) de 1994 a 2021, é considerado o 'pai da interface cérebro-máquina'. Em 2014, ele coordenou a demonstração em que o paraplégico brasileiro Juliano Pinto deu o pontapé inicial da Copa do Mundo utilizando um exoesqueleto controlado por sinais cerebrais. O governo chinês concedeu a Nicolelis o Prêmio da Amizade, sua mais alta condecoração para estrangeiros, em reconhecimento à contribuição para a neuroengenharia chinesa.

Resultados clínicos e novas aplicações

Um estudo recente conduzido no Hospital Xuanwu, com 14 pacientes paraplégicos crônicos, foi o primeiro ensaio clínico randomizado controlado do gênero na China. Após nove meses de treinamento com ICM, metade dos participantes teve a lesão medular reclassificada do nível HA (o mais grave) para HC, indicando melhora motora e de funções excretoras. Além disso, foram observados sinais de reversão da atrofia cerebral decorrente da lesão medular, fenômeno antes considerado improvável.

Wang Zhiming relatou que a recuperação transformou sua rotina e a de sua família. Antes dependente de ajuda para tarefas básicas, como ir ao banheiro e tomar banho, ele agora consegue lavar o rosto, escovar os dentes, limpar a mesa e se locomover sozinho com órteses. Sua esposa, que havia largado o emprego para cuidar dele, pôde retornar ao trabalho. O treinamento diário de Wang dura entre quatro e cinco horas.

O hospital Xuanwu também está aplicando a interface cérebro-máquina no tratamento de afasia causada por esclerose lateral amiotrófica, hemiplegia e tetraplegia. A epilepsia refratária a medicamentos, que atinge mais de 3 milhões de pessoas na China, é outro foco de pesquisa. Zhao Guoguang afirmou que, com o avanço da neurociência, a tecnologia poderá ser usada em distúrbios de memória, comportamentos obsessivos e depressão grave.

Prioridade do governo chinês

A interface cérebro-máquina foi incluída na lista das seis grandes indústrias do futuro que o governo chinês decidiu priorizar nos próximos 15 anos. Zhao Wenjing, pesquisadora do Centro Nacional de Informática, explicou que, embora a tecnologia ainda esteja em estágio inicial, sua curva de crescimento futura será exponencial. As aplicações vão além da medicina: em fábricas, trabalhadores poderiam controlar máquinas com sinais cerebrais; em casa, seria possível acender luzes ou ajustar a temperatura do ar-condicionado mentalmente.

O neurocirurgião Zhao destacou que a cooperação com o Brasil foi fundamental para o desenvolvimento do programa na China. "Eu transferi tudo o que Nicolelis me ensinou em São Paulo para Pequim", afirmou. "Estabelecemos no Hospital Xuanwu o Laboratório Caminhada Plena, na porta tem os logotipos do nosso hospital e da nossa instituição parceira no Brasil."