O papa Leão XIV iniciou neste sábado (6) uma visita de Estado à Espanha, a primeira de um pontífice ao país desde 2010. Durante a viagem, que durará uma semana, o líder da Igreja Católica se reunirá com vítimas de abuso sexual cometido por membros do clero. Em declaração a jornalistas no voo papal, Leão XIV afirmou que o problema continua sendo “uma ferida aberta”.
O pontífice, de 70 anos, desembarcou no aeroporto de Madri, onde foi recebido pelo rei Felipe VI, pela rainha Letizia e pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez. Segundo o Vaticano, o encontro com vítimas está confirmado, embora detalhes sobre o local e horário não tenham sido divulgados.
Um relatório do Defensor do Povo espanhol, publicado em 2023, estima que cerca de 200 mil menores tenham sofrido abusos na Espanha desde 1940. Em março, o governo de Sánchez e a Igreja Católica espanhola assinaram um acordo para indenizar as vítimas, após anos de resistência e falta de transparência por parte da hierarquia eclesiástica.
Agenda e expectativas
Neste sábado, uma cerimônia oficial ocorreu no Palácio Real de Madri. Mais tarde, o papa participará de uma vigília de oração nas proximidades do estádio Santiago Bernabéu, do Real Madrid, onde são esperadas cerca de 400 mil pessoas, em sua maioria jovens. No domingo (7), aproximadamente um milhão de fiéis devem comparecer a uma missa celebrada pelo pontífice no centro de Madri.
Leão XIV afirmou estar “muito satisfeito com os relatos” que indicam um interesse crescente dos jovens pela Igreja Católica. “Eles percebem que existe um vazio, uma falta de sentido, e talvez minha visita esteja ajudando a despertar ainda mais alguma coisa”, declarou.
A chegada do papa coincide com uma série de shows do cantor porto-riquenho Bad Bunny em Madri. Observadores apontam que muitos jovens se dividem entre a espiritualidade e os grandes eventos musicais. “Acho que muitos irão ver Bad Bunny. Mas também acredito que alguns estarão aqui para ver o papa. E isso diz alguma coisa”, comentou o pontífice.
Questões políticas e migratórias
Durante a viagem, Leão XIV discursará no Parlamento espanhol e abençoará a nova torre da Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, que se tornará a igreja mais alta do mundo. Nas Ilhas Canárias, na quinta e sexta-feira, o papa se reunirá com migrantes e organizações de acolhimento, além de participar, ao lado de Pedro Sánchez, de uma homenagem aos milhares de migrantes que morreram tentando chegar à Europa.
As Canárias, arquipélago espanhol na costa oeste da África, tornaram-se a principal porta de entrada de migrantes irregulares na Espanha. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) estima que 1.172 migrantes morreram ou desapareceram nessa rota em 2025, número ligeiramente inferior aos 1.215 registrados em 2024.
Diferentemente de muitos aliados europeus, a Espanha, sob o governo de esquerda de Pedro Sánchez, mantém uma política migratória relativamente liberal. No entanto, o governo enfrenta pressão do conservador Partido Popular e do partido de extrema direita Vox, de orientação anti-imigração e atualmente a terceira maior força política do país.
“O papa Leão XIV está chegando a um país polarizado, onde diferentes atores podem tentar tirar proveito da visita”, afirmou Rafael Rubio, porta-voz da Igreja para a viagem papal. “Garantir que sua mensagem alcance a todos e fale com todos é um grande desafio”, acrescentou.
Segurança e contexto
Cerca de 15 mil integrantes da Polícia Nacional e da Guarda Civil foram mobilizados para a visita, além de efetivos das forças policiais locais. O papa também demonstrou preocupação com a situação da Ucrânia, enquanto a invasão russa entra em seu quinto ano. “Estou preocupado com a Ucrânia. A cada vez, a situação piora. Já se passaram quatro anos e meio. Precisamos encontrar uma solução”, afirmou.
O antecessor de Leão XIV, o papa Francisco, dedicou relativamente pouca atenção a muitos dos tradicionais bastiões católicos da Europa, onde, assim como na Espanha, a prática religiosa vem registrando forte queda nas últimas décadas.
Com informações de Revista Fórum.