O advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, em artigo publicado na Folha, analisa a encíclica do papa Leão 14 sobre inteligência artificial, destacando a citação de Gandalf, personagem de 'O Senhor dos Anéis'. O papa evoca a fala do mago para alertar contra o derrotismo diante de forças avassaladoras como a IA, afirmando que não se deve pensar que os problemas são grandes demais e que as escolhas individuais nada alteram.
Na encíclica 'Magnifica Humanitas', o papa chama essa postura de 'uma forma elegante de rendição, disfarçada de realismo' e conclama cada um a atuar em seu 'próprio âmbito de ação'. O texto ressalta que a inteligência artificial, como força radical de imanência, se contrapõe diretamente às religiões e à busca humana por transcendência.
O artigo aponta que, nos últimos anos, as ideologias da IA têm simulado conceitos religiosos, como a 'escatologia' secularizada (substituindo o arco religioso pela ideia de 'singularidade') e a 'soteriologia' tecnológica (a doutrina de salvação por meio da AGI, que promete curar doenças, eliminar a pobreza e derrotar a morte). Também menciona fantasias como o 'mind uploading' (transferência da mente humana para máquinas) e a formação de uma 'demonologia' tecnológica.
Citando o livro 'Religião e Inteligência Artificial', da antropóloga Beth Singler, o autor afirma que a IA e suas ideologias buscam exercer funções clássicas da religião: criar uma cosmologia, servir de parâmetro para julgamentos éticos e morais, prover sentido e oferecer esperança e medo escatológicos.
Por essa razão, defende que não apenas o catolicismo, mas todas as denominações religiosas — budistas, povos tradicionais, espíritas, evangélicos, hindus, judeus, muçulmanos, protestantes, religiões afro-brasileiras, entre outras — devem se posicionar sobre a IA. Diante da imensidão da tecnologia, surge a oportunidade de um grande diálogo ecumênico, inspirado na frase de Gandalf: 'fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos, para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar'.
Com informações de Folha — Mercado.