O papa Leão 14 lançou a encíclica Magnifica Humanitas sobre inteligência artificial, na qual cita Gandalf, personagem de J.R.R. Tolkien em "O Senhor dos Anéis", para alertar contra o derrotismo. Segundo o documento, não se deve "pensar que os problemas são demasiado grandes e nós demasiado pequenos; e que nossas escolhas nada alteram". O papa classifica essa postura como "uma forma elegante de rendição, disfarçada de realismo" e conclama cada um a atuar em seu "próprio âmbito de ação".
A encíclica, cuja importância só será plenamente compreendida com o tempo, argumenta que a inteligência artificial, como força radical de imanência, se contrapõe diretamente às religiões e à busca humana por transcendência. O texto aponta que as ideologias da IA têm buscado simular conceitos religiosos, como uma "escatologia" secularizada (substituindo a transcendência pela ideia de "singularidade") e uma "soteriologia" tecnológica — a promessa de salvação por meio da Inteligência Artificial Geral (AGI), que, segundo lideranças do setor, poderia "curar todas as doenças", eliminar a pobreza e derrotar a morte.
O papa também menciona fantasias como o "mind uploading" (transferência da mente humana para máquinas) e a formação de uma "demonologia" tecnológica. A antropóloga Beth Singler, no livro Religião e Inteligência Artificial, observa que a IA e suas ideologias buscam exercer funções clássicas da religião: criar uma cosmologia, servir de parâmetro para julgamentos éticos e morais, prover sentido e oferecer esperança e medo escatológicos.
Diante desse cenário, o autor do texto — advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro — defende que não apenas o catolicismo, mas todas as denominações religiosas (budistas, evangélicos, hindus, judeus, muçulmanos, espíritas, religiões afro-brasileiras, entre outras) devem se posicionar sobre a IA. A oportunidade, segundo ele, é de um grande diálogo ecumênico, inspirado na fala de Gandalf: "fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos, para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar".
Com informações de Folha — Tec.