Em um mercado escuro na Faixa de Gaza, um telão se destaca como um raro ponto de luz. Dezenas de homens e rapazes acompanham ansiosamente a partida entre Bélgica e Egito, válida pela primeira fase da Copa do Mundo de 2026. O duelo é um dos mais aguardados pelos torcedores palestinos, que torcem pelo ídolo Mohamed Salah, conhecido como "Faraó". O empate em 1 a 1 não desanima o público: alguns sobem nos ombros dos amigos, outros agitam bandeiras egípcias.
Clima de Copa em meio à destruição
Ao fim da tarde, o clima de Copa do Mundo havia se espalhado pelo bairro de Nuseirat, no centro da Faixa de Gaza. Os sorrisos contrastam com as ruínas onipresentes, resultado de mais de dois anos de guerra entre Israel e o Hamas. "A Copa do Mundo não é um evento trivial qualquer para os habitantes de Gaza", afirmou à AFP Mustafa Siam, membro da Federação Palestina de Futebol. "Os torcedores palestinos vão tentar acompanhar as partidas e esquecer suas preocupações e sua dor", disse Siam, vestindo uma jaqueta vermelha, cor da seleção palestina. Ele também informou que o presidente da federação não conseguiu visto para os Estados Unidos e o Canadá, dois dos países anfitriões do Mundial.
Cafés improvisados e geradores precários
Vários proprietários de pequenos cafés que surgiram em Gaza se esforçam para recriar o clima das grandes competições anteriores. Em Zawaida, no centro do território, um estabelecimento rudimentar montado sob a lona de um acampamento para deslocados transmite os jogos em uma pequena tela. Os comentários dos espectadores se misturam ao zumbido de um gerador. Na beira-mar, outros cafés exibem as partidas, mas os geradores frequentemente param de funcionar, irritando os espectadores. Os garçons precisam improvisar para manter aparelhos obsoletos funcionando, com fios elétricos gastos.
Lembranças do Mundial de 2022
Várias pessoas ouvidas pela AFP recordam a Copa anterior, em 2022, no Qatar. Na ocasião, telões foram instalados nos estádios Palestina e Yarmuk, na Cidade de Gaza, onde milhares de torcedores se reuniam para assistir às partidas noturnas. Estabelecimentos como o café Istambul, que costumavam receber torcedores, foram destruídos durante a guerra.
Marouane al-Cheikh, de 30 anos, que hoje vive em uma tenda, lembra-se de ter acompanhado a edição anterior com amigos em diferentes cafés. "Éramos felizes", recorda. "Já não sinto esse entusiasmo, assisto às partidas em um café instalado sob um toldo, hoje somos miseráveis, nossa visão de mundo mudou, não só em relação ao futebol".