Padre Zezinho, nome artístico do padre José Fernandes de Oliveira, autor de mais de 1,8 mil músicas e ícone do catolicismo brasileiro, volta a ser alvo de críticas de católicos tradicionalistas. Em entrevista à BBC News Brasil, o religioso, que completa 85 anos em 8 de junho e celebra 60 anos de sacerdócio, afirmou que é chamado de “câncer para a Igreja” por setores conservadores, mas defende o diálogo e a atualização.
O episódio mais recente ocorreu em maio, quando o padre republicou em sua página no Facebook um artigo do filósofo Romero Venâncio que criticava a “escalada delirante de extremistas católicos nas redes digitais”. A publicação gerou ataques e vídeos falsos associando o padre ao comunismo. Padre Zezinho minimizou a reação: “Todos os dias sou agredido. Mas essa gente é 2% [dos católicos]. Os outros 98% querem catequese, querem atualização.”
Trajetória e formação
Mineiro de Machado, mudou-se para Taubaté aos 2 anos. Filho de pais paralíticos, cresceu em um bairro pobre e ajudava a mãe, que trabalhava como costureira e cozinheira no convento dos padres dehonianos. Aos 12 anos, ingressou no seminário em Lavras (MG). Estudou em Corupá, Jaraguá do Sul e Brusque (SC), e depois em Taubaté. Em 1962, foi enviado aos Estados Unidos para estudar Teologia em Hales Corners, perto de Milwaukee, onde acompanhou as discussões do Concílio Vaticano 2º.
Fez os votos perpétuos em setembro de 1964, na Pensilvânia, e foi ordenado padre em setembro de 1966. Um ano depois, celebrou sua primeira missa em Taubaté, já influenciado pelo espírito conciliar. Passou a usar violão nas celebrações e dispensar a batina, aproximando-se dos jovens.
Música e mensagem social
Suas canções, como “Oração pela Família” e “Prece Pelo Social”, têm forte teor social. A letra de “Prece Pelo Social” pede “o rico menos rico, o pobre menos pobre” e “salário bem mais decente”. Padre Zezinho afirma que sua música é de “doutrina social” e que sofre críticas desde o início: “Falam que sou um câncer para a Igreja. Não desejo o câncer para ninguém, até porque tenho um em tratamento.”
O teólogo Antonio Manzatto, da PUC-SP, situa sua trajetória na efervescência dos anos 1960, quando a Igreja pós-Concílio buscava nova linguagem para se comunicar com os jovens. Para o sociólogo Rogério Baptistini, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Zezinho é “um dos pioneiros da evangelização moderna”.
Relação com a Renovação Carismática e a Teologia da Libertação
Padre Zezinho refuta ser chamado de progressista: “Sou atualizador. Respeito os conservadores e respeito os progressistas.” Diz ser da “TL bíblica, não da TL marxista” — referindo-se à Teologia da Libertação. Lembra que foi amigo do padre Jonas Abib, fundador da Canção Nova e expoente da Renovação Carismática Católica (RCC), com quem discordava, mas mantinha amizade. “Brincava com padre Jonas: sua mística é ensinar a orar, a minha é ensinar a partilhar.”
Sobre a polarização atual, afirma: “Direita e esquerda existem, conservadores e avançados existem. Podemos discordar, mas sem ódio. Não sou esquerdista, nem direitista, nem centrista. Eu sou catequista.”
Saúde e rotina
Em 2012, sofreu um AVC e ficou sete meses sem falar. No ano seguinte, foi diagnosticado com câncer de próstata, que segue em tratamento. Mora no Conventinho, em Taubaté, e mantém uma página no Facebook com mais de 1 milhão de seguidores, onde publica reflexões e artigos.
O padre recebeu sua primeira biografia autorizada, “Apenas Um Cidadão do Infinito: Vida e Missão de Pe. Zezinho”, escrita pela jornalista Gabi Bonvechio, que o define como “fruto do Concílio Vaticano 2º” e alvo de “injustiça” por tentativas de rotulá-lo.
Com informações de BBC News Brasil.