A intensa onda de calor que atingiu a Europa na primavera deste ano demonstrou a rapidez com que os extremos climáticos estão se tornando o novo normal, de acordo com o serviço de observação da Terra da União Europeia, o Copernicus. O mês de maio registrou uma série de recordes nacionais de temperatura e foi o segundo maio mais quente já registrado globalmente, atrás apenas de 2024.

A oscilação entre temperaturas abaixo da média e picos elevados ocorreu de forma tão rápida em países da Europa Ocidental que populações, plantações e ecossistemas tiveram pouco tempo para se aclimatar, segundo o relatório mensal do Copernicus. “A onda de calor incomumente precoce e intensa demonstra a rapidez com que os extremos climáticos estão se tornando o novo normal, em vez de exceção”, afirmou Samantha Burgess, líder estratégica de clima do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo.

Aquecimento acelerado

Um relatório anual de indicadores climáticos globais, publicado na revista Earth System Science Data em 10 de maio, concluiu que a Terra está acumulando calor em ritmo acelerado, enquanto os gases de efeito estufa permanecem em níveis máximos. O aquecimento atingiu 1,37°C acima dos níveis pré-industriais no último ano e vem aumentando a uma taxa de cerca de 0,27°C por década, com base nos dados de 2025.

A temperatura média global do ar na superfície em maio foi de 1,42°C acima da média pré-industrial, chegando a 15,8°C. No mesmo mês, a extensão média do gelo marinho ficou 4% abaixo da média no Ártico e 9% abaixo da média na Antártida.

Impactos regionais

Reino Unido, França, Irlanda e Portugal enfrentaram condições particularmente severas em maio. A Espanha registrou 101 mortes relacionadas ao calor, o maior número para o mês desde o início do monitoramento. Na França e no Reino Unido, houve aumento de afogamentos, à medida que as pessoas buscavam alívio em águas desconhecidas. Em grande parte do continente, a sensação térmica subiu para entre 35°C e 40°C, considerando os efeitos da umidade, vento e radiação solar sobre o corpo humano.

“Embora notável, o evento é consistente com o rápido aquecimento da Europa e a tendência de longo prazo de ondas de calor mais frequentes, mais intensas e mais precoces na estação”, destacou o relatório do Copernicus. A Europa é o continente que aquece mais rapidamente, em parte devido à proximidade com o Ártico, onde o derretimento do gelo e da neve expõe solo mais escuro que absorve os raios solares.

Contrastes climáticos e El Niño

O ar quente retém mais umidade, gerando contrastes. Enquanto grande parte da Europa ocidental, central e oriental experimentou condições mais secas que a média, houve inundações generalizadas na Turquia, Bulgária e Moldávia. Condições mais úmidas que a média também foram registradas no noroeste da Europa continental, norte da Escandinávia e região do Mar Negro.

Globalmente, o oeste da China, áreas do Brasil e da Austrália tiveram maio mais úmido, enquanto o centro dos EUA, grandes áreas da Ásia Central, sudoeste da Austrália e partes da América do Sul estiveram mais secos que a média. As temperaturas no Pacífico tropical estavam “excepcionalmente altas”, com a parte oriental do oceano em transição para condições de El Niño. Esse fenômeno de aquecimento do Pacífico tipicamente eleva as temperaturas globais e agrava eventos climáticos extremos.

Simon Stiell, secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, afirmou durante a abertura das negociações climáticas em Bonn, na Alemanha, que os efeitos do El Niño seriam “supercarregados pela crise climática” e “prometem mais sofrimento e choques inflacionários”.

Valérie Masson-Delmotte, do Institut Pierre-Simon Laplace, da França, classificou os dados como uma “verificação da realidade” que mostra a necessidade de as sociedades se prepararem para extremos e perdas futuras.