A agência europeia Copernicus, responsável pelo monitoramento da Terra, afirmou que oscilações extremas de temperatura estão se tornando o novo normal. Em seu boletim mensal, o serviço destacou que a rápida transição de temperaturas abaixo da média para níveis elevados na Europa Ocidental deixou populações, plantações e ecossistemas com pouco tempo para se adaptar. Maio de 2025 foi o segundo mês mais quente já registrado globalmente, com temperatura média do ar na superfície de 15,8°C, 1,42°C acima da média pré-industrial.

Onda de calor precoce na Europa

O continente europeu enfrentou uma onda de calor incomumente precoce e intensa. Países como Reino Unido, França, Irlanda e Portugal registraram condições severas. Na Espanha, foram contabilizadas 101 mortes relacionadas ao calor em maio, o maior número para o mês desde o início do monitoramento. Na França e no Reino Unido, houve aumento de afogamentos, à medida que as pessoas buscavam alívio em águas desconhecidas. A sensação térmica em grande parte do continente variou entre 35°C e 40°C, considerando umidade, vento e radiação solar.

“A onda de calor incomumente precoce e intensa demonstra a rapidez com que os extremos climáticos estão se tornando o novo normal, em vez de exceção”, afirmou Samantha Burgess, líder estratégica de clima do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo.

Temperatura global e gelo marinho

O relatório do Copernicus indicou que a extensão média do gelo marinho ficou 4% abaixo da média no Ártico e 9% abaixo na Antártida. O maio mais quente já registrado foi em 2024, com temperatura global de 15,91°C, superando em mais de 1,5°C os níveis pré-industriais. O aquecimento global atingiu 1,37°C em 2024 em relação à era pré-industrial, com taxa de aumento de aproximadamente 0,27°C por década, segundo dados de 2025 publicados na revista Earth System Science Data.

Aquecimento acelerado e consequências

Valérie Masson-Delmotte, do Institut Pierre-Simon Laplace, classificou os dados como uma “verificação da realidade” que evidencia a necessidade de as sociedades se prepararem para extremos e perdas futuras. A Europa é o continente que aquece mais rapidamente, em parte devido à proximidade com o Ártico, onde o derretimento do gelo expõe solo mais escuro que absorve mais radiação solar. O ar quente retém mais umidade, resultando em condições contrastantes: enquanto a Europa ocidental, central e oriental teve maio mais seco que a média, Turquia, Bulgária e Moldávia sofreram inundações generalizadas, e o noroeste da Europa continental, norte da Escandinávia e região do Mar Negro tiveram precipitação acima da média.

Globalmente, o oeste da China, áreas do Brasil e da Austrália registraram mais umidade, enquanto o centro dos Estados Unidos, grandes áreas da Ásia Central, sudoeste da Austrália e partes da América do Sul ficaram mais secos que a média.

El Niño e crise climática

As temperaturas no Pacífico tropical estavam “excepcionalmente altas”, com a parte oriental do oceano em transição para condições de El Niño. Esse fenômeno de aquecimento tende a elevar as temperaturas globais e agravar eventos extremos. Simon Stiell, secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, declarou, durante a abertura das negociações climáticas em Bonn, Alemanha, que os efeitos do El Niño serão “supercarregados pela crise climática” e “prometem mais sofrimento e choques inflacionários”.